sábado, 3 de junho de 2017

Contos Sangrentos do Sabá - Valentine - III

III
57.... 58.... 59...
Eu ouvia nitidamente e constantemente aquelas gotas do outro lado do salão, no andar de cima, eram como ponteiros de um relógio, no entanto, menos precisas, eram gotas de algum cano velho que os anos fizeram com que se infiltram-se no teto e caiam constantemente me ajudando a focar meus sentidos. As noite se passaram sem que aquela figura retornasse para me atormentar, mas a visita daquele que usava uma loção pós barba fedorenta era constante.

Todas as noites ele vinha deixar garrafas e o odor daquele loção pós-barba barata, aquele odor me fazia lembrar a minha infância nas colônias em Jerusalém, principalmente um senhor que tinha sobrevivido ao holocausto, um dos poucos que conheci. Lembro que falavam pouco sobre isso, como algo que necessitava ser lembrado e ao mesmo tempo esquecido. Naqueles dias que passei ali, não sei porquê, mas me faziam lembra da minha infância na colônia, acho que porque me sentia muito como uma criança, aquele sentimento não me fazia bem, mas por diversas noites não tinha sido capaz de mudar isso.

Eu precisava me concentrar, aguçar minha nova visão, audição, olfato, precisava saber os limites, então aquelas gotas, vinha bem a calhar, eu podia sentir o lugar ao meu redor, os batimentos cardíacos de animais pequenos, como ratos, serpentes, sapos comendo mosquitos. Principalmente aprendi a sentir a chegada desse homem que me deixava essas garrafas.

Nas primeiras noites mentia para mim mesmo, como que se me entregasse totalmente a um sonho distante na minha mente, aos poucos eu tive aceitar, pois algo dentro de mim, mais forte do que qualquer impulso que senti antes daquelas noites, me falava a verdade sobre o líquido viscoso dentro daquelas garrafas, eu me perguntava como seria quando eu mesmo precisasse pegar direto da fonte.  O liquido era frio, como a morte, algumas vezes diferente podia sentir as pequenas diferenças com meus sentidos novos, as vezes conseguia até imaginar de onde vinha aquele líquido. Esses devaneios eu tinha que conter, porque sabia que significaria parte do que restou da minha humanidade, naqueles dias mal sabia eu que aquilo que chamava-se humanidade era apenas uma atuação que ficou de uma vida passada, mas não irei adiantar, nada, pois a única coisa que conseguida pensar era que precisava a todo custo acordar mais cedo, eu precisava está ativa quando aquele homem viesse deixar minhas garrafas.

Mas isso não era mais tão simples,era muito difícil, tão difícil quanto acordar cedo depois de dias trabalhando sem parar, dormindo tarde, era pior, como se eu estivesse em uma espécie de coma induzido, meu corpo ficava muito pesado. Todas as vezes que consegui acordar um pouco mais cedo o máximo que conseguia era abrir minhas pálpebras para olhar ao meu redor, podia sentir a mudança de temperatura quando a noite se aproximava, nossa eu sentia a umidade do ar mudando enquanto o sol ia se pondo, apesar da escuridão naquele lugar ser constante, sabia que existia diferenças gritantes entre a escuridão do dia e da noite, algo que não conseguia perceber enquanto era humana, enquanto era viva, mas agora eu podia não apenas perceber com meu corpo, eu podia pressentir, muitas vezes estava certa sobre meus pressentimentos.

Eu precisava de uma chance, eu precisava lutar, eu precisava matar... não apenas por um impulso dentro de mim, mas para por em prática meu plano de fuga, pelo menos eu repetia isso para mim mesma constantemente. E a medida que os dias seguiam, eu sentia-me mais forte. Eu podia sentir uma força interna.

Eu não comia, só sentia sede, a única coisa que tinha para beber eram aquelas garrafas que eram deixadas pelo cúmplice do meu algoz, eu precisava jogar com as novas regras do jogo. Mas como eu disse, era saboroso, mesmo que gelado. Eu lembro que criei uma rotina para os dias bons, eu me levantava e caminhava pela minha prisão sempre que tinha certeza de está sozinha. Eu procurava detalhes que antes não poderia enxergar, nossa era como se pudesse ver todas as tonalidades da escuridão, com todas minúsculas diferenças, estava aprendendo a me acostumar como meus novos sentidos.

Bem, havia dias ruins, dias que não conseguia me levantar, dias em que a luta era comigo mesmo naquele porão escuro, nesses dias nem se quer mexia nas garrafas deixadas pelo cúmplice, eu abria e fechava os olhos me sentido frágil, desolada e sem sentido de continuar vivendo. Eu entendi que aquele monstro que me mantinha em cativeiro tinha feito algo comigo, mexido profundamente como minha mente. Nos dias piores eu podia quase alucinar, com coisas, como se pudesse ver e ouvir coisas que não estavam lá, minhas alucinações envolviam mulheres e homens dos anos 30, podia ver eles caminhando entre os salões, enquanto eu estava amarrada psicologicamente aquele leito velho e quebrado.

Nos dias piores dormia mais que um dia, acordando como uma sonâmbula para beber um pouco do liquido da garrafa, eu achava que estava passando por um esgotamento físico, por não comer como deveria, por está me alimentado por líquidos apenas. Mas não quero levar vocês para esse buraco de merda que é minha maldição, mais tarde eu descobriria que o dom das trevas é diferente para cada um mesmo, inclusive as maldições do sangue.

Eu continuava focada em fugir, um dia eu consegui acordar mais cedo do que de costume, bem mais cedo, lembro que na noite passada a isso, eu fui deitar com esse pensamento fixo, lembro que cheguei a sonhar com o túnel por onde o cúmplice entrava e saía, ouvir seus passos se aproximando.

Eu acordei de sopetão, sabia que era mais cedo, porque sentia o calor atravessando a madeira velha e o ar da noite ainda não se apresentava, era perto do por do sol, eu precisava estar pronta, eu sai do porão, nunca tinha saído naquele horário. Quando abrir a porta vi a iluminação do dia atravessando o salão, mesmo na penumbra onde me encontrava, meu corpo estremeceu.

Por deus aquilo iria queimar meus olhos, eu fiquei em pânico, toda a minha vontade anterior, todo o meu plano foi por água a baixo, como meu corpo não fosse meu fui me inclinando e comecei a chorar, soluçando, aquela luz parecia que iria me tocar a qualquer momento, o cheiro do calor também. Eu fiquei tonta e cai para trás, entrando novamente no meu quarto. 

Minha boca estava seca, eu fui correndo na direção do canto mais escuro do quarto, onde me encolhi, fiquei imóvel e paralisada olhando para a porta. Entre meu desespero não consegui distinguir os passos que vinham pelo corredor, aos poucos fui me controlando, lembrando dos meus objetivos. Instintivamente pensei em correr para a cama e fingir sono, mas os passos estavam perto demais, não haveria tempo.

E não houve, a porta de abriu e pude ver o cúmplice com aquela maldita loção pós-barba, ele era branco, mais alto que eu, tinha um corpo grande e constituição forte, mas vestia roupas que pareciam de um enfermeiro ou um maqueiro de hospital, ele olhou para a cama e ficou estarrecido de não está ali.

 - Puta que paril, cadê ela?

Eu estava no canto escuro do porão, parada e olhando a cena, imóvel. Ele olhou a cama, olhou ao redor em uma atitude simples, que poderia me ver facilmente, mas seus olhos passaram por onde eu estava, como se estivesse ludibriado pelos seus próprios sentidos, ele não me viu .

- Não, não, não.... ele vai me matar!! Eu fiz tudo certo.... não deixei o portão aberto!!

Ele correu para olhar em baixo da cama, enquanto eu observava o pobre diabo desesperado, eu vi a oportunidade certa, ele daria trabalho pelo tamanho, mas se fosse rápida suficiente poderia com um golpe acabar com tudo. Eu sabia o que fazer e fiz.

Eu corri e saltei para chutar com a força do meu peso a costa dele, eu bati com tanta força que pude sentir as articulações da vértebra estalando, ele gritando desesperadamente, rapidamente lancei meus braços em um mata-leão, apertei minhas pernas contra sua cintura e inclinei meu peso para frente. No exato momento em que tentava puxar o ar com o grito de dor, ele engasgou, tentou uma reação em vão, suas mãos não acharam nada, o mata-leão estava bem encaixado, se fosse um lutador daria mais trabalho, mas não houve contra ataque, ele ainda tentou se levantar, mas foi em vão, aos poucos senti seus músculos enfraquecendo, ele desfaleceu, se apertasse um pouco mais poderia quebrar a traqueia, mas eu tinha planos para ele.

Tudo foi tão rápido, que não consegui pensar direito, primeiro aquele desespero fora do normal com a luz do dia, depois o porque dele não consegui me enxergar eu estando praticamente em sua frente e ainda o que diabos eles queriam comigo. Arrastei o cúmplice de volta para a cama, peguei alguns lençóis e rasquei, fazendo uma corda improvisada, era uma precaução mais psicológica que de fato um meio, depois fui investigar o que ele tinha, uma carteira, um 38, abri o tambor, tinha quatro balas, eu não precisaria de tantas. Eu fui ver a carteira, um nome e um endereço, Andrew, enfermeiro do sanatório local de Rotton City.

 Eu sentei ao lado dele na cama, enfiei o revolver na boca dele tão fundo até ele engasgar e acordar, o filha da puta pensou que eu ia tirar né, mas deixei dentro da boca dele, enquanto engasgava, com os olhos vermelhos, tentando respirar.

- Boa noite Andrew, acho que você me deve algumas explicações! Mas primeiro, e mais importante, quem é o Marcos e porque estão me deixando aqui? – ao perceber que ele iria cooperar, fui tirando o 38 da sua boca, mas ainda apontando para sua cara, ele estava cagado de medo, e eu iria fazer com que continuasse daquele jeito.

- Ele é o dono do sanatório da cidade! Ele é um senhor da noite, como você, senhora! Ele é um filho de malkav como a senhora! Eu sou apenas um servo, por favor não me mate!

- Que merda é essa que você esta falando Andrew? Que porra é essa de senhor da noite seu fudido....
Eu puxei o cão do revolver, o barulho fez ele arregalar os olhos ainda mais, eu podia ouvir o batimento cardíaco dele como um barulho de ventilador em quarto, a gente sabe que está ali, mas não é algo que incomode muito.

- Senhora... senhora... eu juro, eu estou aqui para cuidar da senhora, até que se recupere... senhor Marcos me deixou responsável... por favor senhora!

Que merda era aquilo tudo, que porra, era essa, eu fiquei pensando por um momento ou dois, enquanto meus dedos instintivamente deslizavam pelo gatilho, o cheiro de pólvora, o suor que escorria pela face dele, em meio a tanta coisa eu percebi algo que era obvio, mas tão ofuscado de minha mente, em meio aquilo tudo, aquele esforço que fiz para me mover mais cedo, em meio a toda aquela adrenalina, eu percebi como uma pedrada na minha cabeça, que diferente de Andrew.


- Eu não estou respirado!?