Tudo estava frio, acho que foi a primeira coisa que me veio a cabeça, isso que deve ser a morte, pensei, um tiro na cabeça e um gosto estranho na boca de pólvora, eu sabia que iria para o inferno, mas seria melhor do quer encarar meu senhor, depois de 10 anos escravo dele sentia-me livre com aquela bala na minha boca.
“Eu estava fora... mas eles me puxaram de volta”
Quando abri os olhos, percebi o óbvio, ainda estava vivo e com a cabeça intacta, eu levantei mais rápido que podia, minha garganta estava cega, me engasguei com minha saliva.
“Fala quem te mandou?”
“Taylor” – respondi sem pensar, como se não devesse nada a aquele bastardo.
“Onde está Thomas”
O tal Thomas havia chegado à casa do meu antigo senhor há mais ou menos dois dias, ele estava envolvido na morte de uma mulher na cidade grande, pouco me importava, isso iria sobrar para mim no final. Eu que teria de conseguir mais sangue, mais balas, que merda de vida eu levava, sem amigos, sem namorada, tendo que mexer com o dinheiro de outro, mas um escravo de um desgraçado.
“Com Taylor, na concessionária, estão juntos”
De repente uma luz acendeu pelas minhas costas, era um farol de milha e o som de um motor de mais de 1.000 cavalos cortava a estrada escura, era um caminhão branco, que eu já conhecia de muito tempo, eu corri o máximo que pude, me joguei no meio fio da estrada, enquanto o caminhão cortava ao meio o Mercedes, eu fechei os olhos e sentir o calor da explosão, um pedaço de carne atingiu minhas costas.
O caminhão derrapou à frente, olhei de canto de olho, escondido, acho que nunca tive tanto medo, ao mesmo tempo em que tudo parecia surreal, um homem, de mais de dois metros saiu da cabine, parou na estrada, ele tinha um barba espessa e era careca, em uma das suas mãos parecia estar segurando algo.
Olhei com mais atenção e vi um gancho, ele não brilhava, nem parecia ameaçador de longe, mas era um gancho que com toda certeza poderia arrancar a carne de qualquer um naquele lugar.
“- Saiam, saiam todos...” – ele gritou, sua voz era grave e parecia o som de um demônio, eu me escondi um pouco mais.
“- Saiam seus bastardos... eu quero sangue essa noite...”
Aquela voz me aterrorizou de tal modo que levantei e corri na direção oposta, como se fugisse do próprio demônio, estava entrando no mato, quando o Ford vermelho me atingiu, sentir minhas costelas quebrando e minha bacia também, como doeu.
O ronco do motor soava em meu ouvido, não conseguia nem pensar direito, a dor, a boca seca, eu queria morrer, ele falou algo para mim, eu respondi sem nem ao menos pensar, implorando pelo amor de Deus que não me matasse.
Ele entrou no carro, a roda estava perto do meu rosto, ouvi o desgraçado passando a marcha, foi a ultima coisa que escutei.... lembro de ter gritado e depois somente a escuridão...
“Você lembra do rosto do dele?” – perguntou o homem de sobretudo marrom
“Claro que eu me lembro, não vou me esquecer”
“Ótimo, vamos atrás dele...”



