segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma noite solitária


“Se você parar e ouvir o que a noite tem a dizer, jamais poderá voltar-se para dia novamente, então se finja de surda o quanto puder”

O que mudou de verdade nesses últimos anos, que não fosse previsto há cem anos? Apaixonei-me por Julio Verne, como sua amante escutei atentamente seus sinais, se apenas os outros tivessem escutado.

Sento-me na sacada de casa, a neve não para de cair, é quase natal, a economia está uma merda e mesmo assim todos gastam sem parar, o presidente é um negro e a nova sensação é uma serie de zumbis, há vampiros que brilham ao sol nos cinemas, tudo parece tão familiar, a sociedade perdeu o medo do sobrenatural e passou admira-la, isso seria loucura ou apenas os sinais finais do tempo.

Meu cálice ainda está quente, de onde estou vejo as luzes da minha maravilhosa cidade, pessoas sem vida alguma andando de um lado para outro, esperando por algo que possa mudar suas vidas, nada muda, mas mesmo assim elas torcem para que o inesperado possa acontecer.

A NASA fala sobre descoberta e todos torcem por alienígenas, a violência cresce a cada dia e todos estão ligados na pontuação dos Lakers, eu apenas fico sorrindo enquanto a verdadeira guerra está sendo travada, dois anos resistindo a investidas, traições, me pergunto no que nos diferenciamos dos humanos, em quase nada, a nossa diferença está em um suspiro ou outro, em um bater de coração.

Estou com frio, às vezes acho que esse frio que sinto é apenas uma lembrança, não é nada comparado com o frio de uma estalagem do inicio do século, ou a fome que se abatia de uma pequena garota amedrontada em dos cantos da cidade, sinto falta de Amanda, 18 anos se passaram e mesmo assim ainda sinto falta dela, uma pena que aconteceu, mas eu lhe avisei várias e várias vezes.

 Eu quase posso sentir a mudança chegando, a guerra dos magos acabou se quer os membros perceberam e o número crescente de lobos que se encontram ao redor da floresta, algo de muito estranho está acontecendo, avisei ao príncipe que deve tomar cuidado, desde que me recolhi há dez anos não sinto essa vontade de retornar ao grande jogo, será que eu alguém poderia negar, será que temeriam.

Olho para minhas mãos pálidas e para o anel de ouro que recebi de presente em 1860, cruzei três séculos, com medo, às vezes sem dinheiro, às vezes matando, às vezes fugindo, tive um caso com Bessie Smith, fui uma puta em São Francisco, vi ascensão de movimentos e suas quedas, um perigo se aproxima do oriente, o medo toma conta de todos, parece que a noite final sempre esteve em nossos calcanhares.

São 2:30 da manhã quando alguém toca minha campainha, sei bem quem é, ele vem me pedir ajuda, está com tanto medo que posso sentir seu cheiro daqui, já deixei ordens para que entrasse. Não está sozinho, traz consigo uma acompanhante tão bêbada que posso sentir o cheiro do champanhe barato que ele deu a garota.

“Olá Madame Bouderville! – ele diz ao entrar, nunca me acostumei com esse nome no fundo, tomo mais um pouco do meu cálice.

 “Boa noite Thomas, o que deseja?”

Ele deixa a garota no sofá, não me importo já me acostumei com os modos dele, ele senta-se ao meu lado e fita a cidade comigo.

“Madame, acho que sabe o que aconteceu a noite passada no parque do diabo?”

Eu sei bem o que aconteceu, uma forra de seus amiguinhos, um erro fatal, pegaram a mortal errada para satisfazer seus impulsos pervertidos, pegaram uma das filhas de John Alex Bourdie, ele foi meu amante durante anos, antes se torna o que é hoje, foi o melhor de todos os homens que tive em minha vida, mas ele nunca conseguiu abandonar sua humanidade, sua culpa até hoje me excita, tanto como sua sede por sangue, incrível observar essa dualidade em John, Thomas irá me pedir, implorar que eu intervenha.

Eu o escuto falar, mas ainda observo a cidade, ele conta em detalhes como tudo aconteceu, tentando firmar sua argumentação, escuto calmamente, cautelosamente cada palavra, me viro para ele.

“Thomas olhe bem para essa cidade, que lhe acolheu há cinco anos, olhe bem, tudo que você conhece está prestes a mudar, e por mais que diga que não tem culpa, que foi algum idiota de seu grupo, você sabe muito bem, que a culpa é sua, assim como os humanos, em nossa existência temos que fazer escolhas, escolhas sempre são difíceis de manter”

“Madame...”

“Você tem uma chance, vá para o Distrito de Yesterron, procure seu velho amigo, ele saberá como lhe ajudar, ele nunca o deixou na mão, principalmente agora. Vá ainda está noite e não diga a ninguém, mas acredite, Alex não irá parar até te encontrar, então se prepare para a guerra e deixe que cuido do príncipe.”

“Não sei como agradecer...”

“Saberá, quando a hora chegar...”

Ele se despede, pego o celular e telefono para Alex e digo exatamente o que ele precisa saber, a garota dorme tão serenamente em meu sofá, estou de volta para o final.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Caixa de papelão


Dezembro 1991
Brendan dirigia cansado pela E-23 rumo a Rotom City, 200 dólares para entregar uma caixa com livros em um apartamento no centro da cidade, ele não gostava de sair do campus, afinal de contas era seu habitat natural, sentia-se extremamente seguro atrás dos muros da biblioteca, mas seu professor pediu um favor e o dinheiro viria a calhar, dois anos estudando comportamento humano na faculdade de psicologia, todo mundo disse-lhe para fazer alguma faculdade de direito, ou medicina, ele insistiu nisso. Nem se quer foi para uma faculdade renomada, parou em um campus de terceira, próximo de Chicago, onde estão as cabeças pensantes da área, mas ele não se importa muito
A noite está gelada e ele se sente cansado, a paisagem da estrada, uma imensa floresta que deixa a estrada mais escura do que realmente poderia ser apenas o deixa mais sonolento, ele olha calmamente para o relógio, passam das duas da manhã, seu professor disse que a moça estaria acordada esperando, doutora Anabelle Hugson, especialista em Política Externa, um referência no país, só não lhe entra na cabeça porque não poderia esperar até amanhã, mas vai saber.
Um pouco mais a frente à chuva começa a cair, ele sente o frio atravessando sua pele, a fome começa a apertar, mas ele continua a dirigir sem parar, acelera um pouco mais e liga o rádio, está tocando Jump do Van Hallen, ele sorrir pelo menos isso o aquece um pouco.
Ele entra pelo norte da cidade, as ruas molhadas não são nada acolhedoras, ao longe ele vê os prédios do centro, a cidade parece uma Atlanta só que em escala menor, não pensa muito apenas segue em frente.
Para em um posto para abastecer, olha em seu relógio três e meia da manhã, compra um café na loja de conveniência e segue em frente até o endereço, quase 4 horas ele encontra o apartamento, não foi difícil, ele fica feliz por não ter sido assaltado duas vezes, na portaria o funcionário diz para ele subir, ela mora na cobertura.
Ao se olhar no espelho do banheiro segurando a caixa de papelão ele se arruma um pouco, ajeita o cabelo e seus enormes óculos, da um sorriso sem graça e espera a porta do elevador abrir, saiu pelo corredor meio sem jeito, quase tropeçando no carpete, só há uma porta, segue em frente, ele não está acostumado com um lugar tão requintado, sua família sempre fora de classe média, ele muitas vezes se quer tinha dinheiro para nada, jamais compraria uma cobertura, ele tinha bem consciência disso, não que se importe no fundo.
Antes que chegue à porta ela se abre, do outro lado uma mulher um pouco menor que ele, ela está com um vestido preto de festa e salto alto, mesmo assim Brendam ainda é maior que ela, ele se sente demasiadamente envergonhado, ele não consegue nem fitar a moça.

“Bom.. dia senhora” – ela sorri ao perceber a timidez do garoto
“Não me chame de senhora, não sou tão velha assim, pode me chamar de Ana, entre”
“Não senhora, não estou devida...”
“Entre...” – diz em um tom mais firme, Brendan nem questiona mais, apenas se move para dentro do apartamento.
De repente está dentro de uma sala ampla, vê um piano de cauda do seu lado direito, uma mesinha no meio da sala, o local é limpo como um hospital, mas ele sente algo no ar, algo que está errado, mas não consegue perceber direito o que é.
Quando se vira Ana está tão próxima dele que ele sente o perfume dela, percebe o leve odor misturado com algo, consegue perceber que a pele dela é tão lisa e parece ser tão macia que ele poderia ficar dias apenas fitando seu rosto, mas então ele percebe o obvio, ele não consegue sentir a respiração dela. Ao se dar conta disso sente algo quente escorregando pela sua perna, olha e percebe que é sangue.
Percebe um punhal fincado em seu estomago e perde a força, caindo quase desfalecido.
“Mas o que foi que eu fiz?” – ainda fala.
“Você não fez nada, não fez nada de sua vida, até hoje.”
Ela se aproxima do pescoço de Brendan e começa a beijá-lo, ele sente o sono tomar conta dele, olha pela janela e vê os raios cortando a noite escura...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Caminhos Retorcidos


Abril de 1994.

“Não sei ao certo o que existe depois, mas sei bem o que existe dentro de mim”

Meus olhos ardiam sem parar, sentia minha boca seca e podia jurar que perderia cedo ou tarde a sanidade, aquela garota me olhava ofegante e acreditando que poderia tirar ela daquela fria, que monte de mentiras, estávamos perdidos, do lado de fora podia sentir cada um deles, esperando o momento certo para invadir a casa e nos partir ao meio, com sorte eu morreria rápido e sem dor e ela também, se desse errado eu veria sendo morta depois de muito tempo ou me deixariam queimando na casa, de qualquer modo estávamos fudidos!

Não sei por que aquilo me lembrou o Assalto ao Distrito 13, a versão de John Carpter, mas sem os efeitos especiais, droga os malditos atores não falariam merda alguma com uma bala no braço e a cabeça partida, mas o que estava me deixando mais preocupado era o fato deles não terem arrombado a porra da porta e acabado logo com isso, o que eu poderia fazer ou a garota? O que eles esperavam?

Ela se esgueira até mim, por Deus como era lindo o sorriso dela, não havia como resistir, valia à pena morrer por causa disso? Quando sinto os lábios dela encostando-se aos meus, sei bem a resposta. Seis balas na arma, uma faca e ela encosta sua cabeça em meu peito, aos poucos me sinto melhor, ela me acalma, meu coração dispara, ela sente e encolhe-se para perto de mim, como uma criança em busca de abrigo, ela pressiona sua cabeça sobre meu peito um pouco mais forte e começa a chorar.

“Calma garota, vai dar tudo certo!”

“A culpa é minha Loyd, eles me seguiram, a culpa é minha”

“Não garota, eles já estavam vindo aqui de qualquer modo, está me ouvindo?”

“Oh Loyd... O que vamos fazer?”

“Não se preocupe, vamos matar cada filha da mãe que atravessar essa porta”


Eu minto sem remorso algum enquanto olho a munição, ela me abraça com mais força, duas balas, uma para mim e outra para ela. Eu sei exatamente o que fazer , "não vão nos pegar, não podem, eu não vou dar esse gostinho aos desgraçados". Sinto minha mão tremer, estou perdendo sangue demais, logo não terei força para nada, vão entrar e pegar ela, vão arrastá-la para fora e brincar a noite inteira com ela, não posso permitir isso, não Loyd “Hurricane”, não há honra nisso.


Escuto sons no fundo e posso ouvir nitidamente passos na porta da frente, será o fim.

“Benzinho, feche os olhos”

A porta é arrombada, três deles entram tão rápido como um gato fugindo da água escaldante, atiro sem pensar muito, um deles cai, os outros dois vêm para cima, sorrindo como viciados, eles são viciados, no fundo outra porta é arrombada, “duas balas” digo para mim mesmo, “duas balas, uma para mim e outra para garota”. 

Viro para terminar o que eles começaram, mas eles acertam minha mão antes disso e arrancam meu benzinho do meu peito, aproveito e enfio a faca na garganta de um deles tão fundo que poderia arrancar seu nariz, o outro fica paralisado, não dou muito tempo, acerto a garganta dele e o sangue jorra no cabelo de minha belezinha, ele a solta, sinto dois baques fortes na costa, minha boca se enche de sangue e meu peito arde, viro e arremesso a faca, certeiramente acerta um dos que entraram pelos fundos, ele cai, outro mira em meu benzinho, fico na frente e não sei mais de nada, um, dois, três, quatro, o desgraçado gasta todas as balas no tambor e começa a chorar e gritar quando sente meus dedos furando seus olhos, eu quebro o pescoço dele com a ultima força que tenho, um ultimo tiro me acerta e caiu sentado no sofá, nunca vi o desgraçado antes ele se aproxima e coloca o cano quente bem na minha testa.

“Acabou Loyd, vou levar a garota”

“Vai levar meus ovos na sua cara”

Ele cai depois de dois tiros, eu não sinto bem minhas pernas, nem meu corpo, vejo meu benzinho se aproximando com minha arma não, “duas balas” penso.

Ela me abraça forte, encosta sua cabeça em meu peito, aos poucos fica cada vez mais difícil respirar, tudo parece um sonho, ao fundo escuto “Lonely Avenue”, ela chora sem parar abraçada em mim, minha alma pode até ir para o inferno, mas meu corpo morre no paraíso.

“Benzinho...”
“Loyd...” ela olha para mim com seus olhos negros, a beijo pela ultima vez e me despeço desse mundo.


Crônicas de Rottom City.