“Se você parar e ouvir o que a noite tem a dizer, jamais poderá voltar-se para dia novamente, então se finja de surda o quanto puder”
O que mudou de verdade nesses últimos anos, que não fosse previsto há cem anos? Apaixonei-me por Julio Verne, como sua amante escutei atentamente seus sinais, se apenas os outros tivessem escutado.
Sento-me na sacada de casa, a neve não para de cair, é quase natal, a economia está uma merda e mesmo assim todos gastam sem parar, o presidente é um negro e a nova sensação é uma serie de zumbis, há vampiros que brilham ao sol nos cinemas, tudo parece tão familiar, a sociedade perdeu o medo do sobrenatural e passou admira-la, isso seria loucura ou apenas os sinais finais do tempo.
Meu cálice ainda está quente, de onde estou vejo as luzes da minha maravilhosa cidade, pessoas sem vida alguma andando de um lado para outro, esperando por algo que possa mudar suas vidas, nada muda, mas mesmo assim elas torcem para que o inesperado possa acontecer.
A NASA fala sobre descoberta e todos torcem por alienígenas, a violência cresce a cada dia e todos estão ligados na pontuação dos Lakers, eu apenas fico sorrindo enquanto a verdadeira guerra está sendo travada, dois anos resistindo a investidas, traições, me pergunto no que nos diferenciamos dos humanos, em quase nada, a nossa diferença está em um suspiro ou outro, em um bater de coração.
Estou com frio, às vezes acho que esse frio que sinto é apenas uma lembrança, não é nada comparado com o frio de uma estalagem do inicio do século, ou a fome que se abatia de uma pequena garota amedrontada em dos cantos da cidade, sinto falta de Amanda, 18 anos se passaram e mesmo assim ainda sinto falta dela, uma pena que aconteceu, mas eu lhe avisei várias e várias vezes.
Eu quase posso sentir a mudança chegando, a guerra dos magos acabou se quer os membros perceberam e o número crescente de lobos que se encontram ao redor da floresta, algo de muito estranho está acontecendo, avisei ao príncipe que deve tomar cuidado, desde que me recolhi há dez anos não sinto essa vontade de retornar ao grande jogo, será que eu alguém poderia negar, será que temeriam.
Olho para minhas mãos pálidas e para o anel de ouro que recebi de presente em 1860, cruzei três séculos, com medo, às vezes sem dinheiro, às vezes matando, às vezes fugindo, tive um caso com Bessie Smith, fui uma puta em São Francisco, vi ascensão de movimentos e suas quedas, um perigo se aproxima do oriente, o medo toma conta de todos, parece que a noite final sempre esteve em nossos calcanhares.
São 2:30 da manhã quando alguém toca minha campainha, sei bem quem é, ele vem me pedir ajuda, está com tanto medo que posso sentir seu cheiro daqui, já deixei ordens para que entrasse. Não está sozinho, traz consigo uma acompanhante tão bêbada que posso sentir o cheiro do champanhe barato que ele deu a garota.
“Olá Madame Bouderville! – ele diz ao entrar, nunca me acostumei com esse nome no fundo, tomo mais um pouco do meu cálice.
“Boa noite Thomas, o que deseja?”
Ele deixa a garota no sofá, não me importo já me acostumei com os modos dele, ele senta-se ao meu lado e fita a cidade comigo.
“Madame, acho que sabe o que aconteceu a noite passada no parque do diabo?”
Eu sei bem o que aconteceu, uma forra de seus amiguinhos, um erro fatal, pegaram a mortal errada para satisfazer seus impulsos pervertidos, pegaram uma das filhas de John Alex Bourdie, ele foi meu amante durante anos, antes se torna o que é hoje, foi o melhor de todos os homens que tive em minha vida, mas ele nunca conseguiu abandonar sua humanidade, sua culpa até hoje me excita, tanto como sua sede por sangue, incrível observar essa dualidade em John, Thomas irá me pedir, implorar que eu intervenha.
Eu o escuto falar, mas ainda observo a cidade, ele conta em detalhes como tudo aconteceu, tentando firmar sua argumentação, escuto calmamente, cautelosamente cada palavra, me viro para ele.
“Thomas olhe bem para essa cidade, que lhe acolheu há cinco anos, olhe bem, tudo que você conhece está prestes a mudar, e por mais que diga que não tem culpa, que foi algum idiota de seu grupo, você sabe muito bem, que a culpa é sua, assim como os humanos, em nossa existência temos que fazer escolhas, escolhas sempre são difíceis de manter”
“Madame...”
“Você tem uma chance, vá para o Distrito de Yesterron, procure seu velho amigo, ele saberá como lhe ajudar, ele nunca o deixou na mão, principalmente agora. Vá ainda está noite e não diga a ninguém, mas acredite, Alex não irá parar até te encontrar, então se prepare para a guerra e deixe que cuido do príncipe.”
“Não sei como agradecer...”
“Saberá, quando a hora chegar...”
Ele se despede, pego o celular e telefono para Alex e digo exatamente o que ele precisa saber, a garota dorme tão serenamente em meu sofá, estou de volta para o final.
Tu já pensastes em ser escritor Johnny? Esse texto tá muito bom! :-D
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