III
57.... 58.... 59...
Eu ouvia nitidamente e constantemente aquelas gotas do outro
lado do salão, no andar de cima, eram como ponteiros de um relógio, no entanto,
menos precisas, eram gotas de algum cano velho que os anos fizeram com que se
infiltram-se no teto e caiam constantemente me ajudando a focar meus sentidos.
As noite se passaram sem que aquela figura retornasse para me atormentar, mas a
visita daquele que usava uma loção pós barba fedorenta era constante.
Todas as noites ele vinha deixar garrafas e o odor daquele
loção pós-barba barata, aquele odor me fazia lembrar a minha infância nas
colônias em Jerusalém, principalmente um senhor que tinha sobrevivido ao
holocausto, um dos poucos que conheci. Lembro que falavam pouco sobre isso,
como algo que necessitava ser lembrado e ao mesmo tempo esquecido. Naqueles
dias que passei ali, não sei porquê, mas me faziam lembra da minha infância na
colônia, acho que porque me sentia muito como uma criança, aquele sentimento
não me fazia bem, mas por diversas noites não tinha sido capaz de mudar isso.
Eu precisava me concentrar, aguçar minha nova visão, audição,
olfato, precisava saber os limites, então aquelas gotas, vinha bem a calhar, eu
podia sentir o lugar ao meu redor, os batimentos cardíacos de animais pequenos,
como ratos, serpentes, sapos comendo mosquitos. Principalmente aprendi a sentir
a chegada desse homem que me deixava essas garrafas.
Nas primeiras noites mentia para mim mesmo, como que se me
entregasse totalmente a um sonho distante na minha mente, aos poucos eu tive
aceitar, pois algo dentro de mim, mais forte do que qualquer impulso que senti
antes daquelas noites, me falava a verdade sobre o líquido viscoso dentro
daquelas garrafas, eu me perguntava como seria quando eu mesmo precisasse pegar
direto da fonte. O liquido era frio,
como a morte, algumas vezes diferente podia sentir as pequenas diferenças com
meus sentidos novos, as vezes conseguia até imaginar de onde vinha aquele
líquido. Esses devaneios eu tinha que conter, porque sabia que significaria
parte do que restou da minha humanidade, naqueles dias mal sabia eu que aquilo
que chamava-se humanidade era apenas uma atuação que ficou de uma vida passada,
mas não irei adiantar, nada, pois a única coisa que conseguida pensar era que
precisava a todo custo acordar mais cedo, eu precisava está ativa quando aquele
homem viesse deixar minhas garrafas.
Mas isso não era mais tão simples,era muito difícil, tão
difícil quanto acordar cedo depois de dias trabalhando sem parar, dormindo
tarde, era pior, como se eu estivesse em uma espécie de coma induzido, meu
corpo ficava muito pesado. Todas as vezes que consegui acordar um pouco mais
cedo o máximo que conseguia era abrir minhas pálpebras para olhar ao meu redor,
podia sentir a mudança de temperatura quando a noite se aproximava, nossa eu
sentia a umidade do ar mudando enquanto o sol ia se pondo, apesar da escuridão
naquele lugar ser constante, sabia que existia diferenças gritantes entre a escuridão
do dia e da noite, algo que não conseguia perceber enquanto era humana,
enquanto era viva, mas agora eu podia não apenas perceber com meu corpo, eu
podia pressentir, muitas vezes estava certa sobre meus pressentimentos.
Eu precisava de uma chance, eu precisava lutar, eu precisava
matar... não apenas por um impulso dentro de mim, mas para por em prática meu
plano de fuga, pelo menos eu repetia isso para mim mesma constantemente. E a
medida que os dias seguiam, eu sentia-me mais forte. Eu podia sentir uma força
interna.
Eu não comia, só sentia sede, a única coisa que tinha para
beber eram aquelas garrafas que eram deixadas pelo cúmplice do meu algoz, eu
precisava jogar com as novas regras do jogo. Mas como eu disse, era saboroso,
mesmo que gelado. Eu lembro que criei uma rotina para os dias bons, eu me
levantava e caminhava pela minha prisão sempre que tinha certeza de está
sozinha. Eu procurava detalhes que antes não poderia enxergar, nossa era como
se pudesse ver todas as tonalidades da escuridão, com todas minúsculas
diferenças, estava aprendendo a me acostumar como meus novos sentidos.
Bem, havia dias ruins, dias que não conseguia me levantar,
dias em que a luta era comigo mesmo naquele porão escuro, nesses dias nem se
quer mexia nas garrafas deixadas pelo cúmplice, eu abria e fechava os olhos me
sentido frágil, desolada e sem sentido de continuar vivendo. Eu entendi que
aquele monstro que me mantinha em cativeiro tinha feito algo comigo, mexido
profundamente como minha mente. Nos dias piores eu podia quase alucinar, com
coisas, como se pudesse ver e ouvir coisas que não estavam lá, minhas
alucinações envolviam mulheres e homens dos anos 30, podia ver eles caminhando
entre os salões, enquanto eu estava amarrada psicologicamente aquele leito
velho e quebrado.
Nos dias piores dormia mais que um dia, acordando como uma
sonâmbula para beber um pouco do liquido da garrafa, eu achava que estava
passando por um esgotamento físico, por não comer como deveria, por está me
alimentado por líquidos apenas. Mas não quero levar vocês para esse buraco de
merda que é minha maldição, mais tarde eu descobriria que o dom das trevas é
diferente para cada um mesmo, inclusive as maldições do sangue.
Eu continuava focada em fugir, um dia eu consegui acordar
mais cedo do que de costume, bem mais cedo, lembro que na noite passada a isso,
eu fui deitar com esse pensamento fixo, lembro que cheguei a sonhar com o túnel
por onde o cúmplice entrava e saía, ouvir seus passos se aproximando.
Eu acordei de sopetão, sabia que era mais cedo, porque sentia
o calor atravessando a madeira velha e o ar da noite ainda não se apresentava,
era perto do por do sol, eu precisava estar pronta, eu sai do porão, nunca
tinha saído naquele horário. Quando abrir a porta vi a iluminação do dia
atravessando o salão, mesmo na penumbra onde me encontrava, meu corpo
estremeceu.
Por deus aquilo iria queimar meus olhos, eu fiquei em pânico,
toda a minha vontade anterior, todo o meu plano foi por água a baixo, como meu
corpo não fosse meu fui me inclinando e comecei a chorar, soluçando, aquela luz
parecia que iria me tocar a qualquer momento, o cheiro do calor também. Eu
fiquei tonta e cai para trás, entrando novamente no meu quarto.
Minha boca estava seca, eu fui correndo na direção do canto
mais escuro do quarto, onde me encolhi, fiquei imóvel e paralisada olhando para
a porta. Entre meu desespero não consegui distinguir os passos que vinham pelo
corredor, aos poucos fui me controlando, lembrando dos meus objetivos.
Instintivamente pensei em correr para a cama e fingir sono, mas os passos
estavam perto demais, não haveria tempo.
E não houve, a porta de abriu e pude ver o cúmplice com
aquela maldita loção pós-barba, ele era branco, mais alto que eu, tinha um
corpo grande e constituição forte, mas vestia roupas que pareciam de um
enfermeiro ou um maqueiro de hospital, ele olhou para a cama e ficou
estarrecido de não está ali.
- Puta que paril, cadê
ela?
Eu estava no canto escuro do porão, parada e olhando a cena,
imóvel. Ele olhou a cama, olhou ao redor em uma atitude simples, que poderia me
ver facilmente, mas seus olhos passaram por onde eu estava, como se estivesse
ludibriado pelos seus próprios sentidos, ele não me viu .
- Não, não, não.... ele vai me matar!! Eu fiz tudo certo....
não deixei o portão aberto!!
Ele correu para olhar em baixo da cama, enquanto eu observava
o pobre diabo desesperado, eu vi a oportunidade certa, ele daria trabalho pelo
tamanho, mas se fosse rápida suficiente poderia com um golpe acabar com tudo.
Eu sabia o que fazer e fiz.
Eu corri e saltei para chutar com a força do meu peso a costa
dele, eu bati com tanta força que pude sentir as articulações da vértebra
estalando, ele gritando desesperadamente, rapidamente lancei meus braços em um
mata-leão, apertei minhas pernas contra sua cintura e inclinei meu peso para
frente. No exato momento em que tentava puxar o ar com o grito de dor, ele
engasgou, tentou uma reação em vão, suas mãos não acharam nada, o mata-leão
estava bem encaixado, se fosse um lutador daria mais trabalho, mas não houve
contra ataque, ele ainda tentou se levantar, mas foi em vão, aos poucos senti
seus músculos enfraquecendo, ele desfaleceu, se apertasse um pouco mais poderia
quebrar a traqueia, mas eu tinha planos para ele.
Tudo foi tão rápido, que não consegui pensar direito,
primeiro aquele desespero fora do normal com a luz do dia, depois o porque dele
não consegui me enxergar eu estando praticamente em sua frente e ainda o que
diabos eles queriam comigo. Arrastei o cúmplice de volta para a cama, peguei
alguns lençóis e rasquei, fazendo uma corda improvisada, era uma precaução mais
psicológica que de fato um meio, depois fui investigar o que ele tinha, uma carteira,
um 38, abri o tambor, tinha quatro balas, eu não precisaria de tantas. Eu fui
ver a carteira, um nome e um endereço, Andrew, enfermeiro do sanatório local de
Rotton City.
Eu sentei ao lado dele
na cama, enfiei o revolver na boca dele tão fundo até ele engasgar e acordar, o
filha da puta pensou que eu ia tirar né, mas deixei dentro da boca dele,
enquanto engasgava, com os olhos vermelhos, tentando respirar.
- Boa noite Andrew, acho que você me deve algumas
explicações! Mas primeiro, e mais importante, quem é o Marcos e porque estão me
deixando aqui? – ao perceber que ele iria cooperar, fui tirando o 38 da sua
boca, mas ainda apontando para sua cara, ele estava cagado de medo, e eu iria
fazer com que continuasse daquele jeito.
- Ele é o dono do sanatório da cidade! Ele é um senhor da
noite, como você, senhora! Ele é um filho de malkav como a senhora! Eu sou
apenas um servo, por favor não me mate!
- Que merda é essa que você esta falando Andrew? Que porra é
essa de senhor da noite seu fudido....
Eu puxei o cão do revolver, o barulho fez ele arregalar os
olhos ainda mais, eu podia ouvir o batimento cardíaco dele como um barulho de
ventilador em quarto, a gente sabe que está ali, mas não é algo que incomode
muito.
- Senhora... senhora... eu juro, eu estou aqui para cuidar da
senhora, até que se recupere... senhor Marcos me deixou responsável... por
favor senhora!
Que merda era aquilo tudo, que porra, era essa, eu fiquei
pensando por um momento ou dois, enquanto meus dedos instintivamente deslizavam
pelo gatilho, o cheiro de pólvora, o suor que escorria pela face dele, em meio
a tanta coisa eu percebi algo que era obvio, mas tão ofuscado de minha mente,
em meio aquilo tudo, aquele esforço que fiz para me mover mais cedo, em meio a
toda aquela adrenalina, eu percebi como uma pedrada na minha cabeça, que
diferente de Andrew.
- Eu não estou respirado!?


