sábado, 3 de junho de 2017

Contos Sangrentos do Sabá - Valentine - III

III
57.... 58.... 59...
Eu ouvia nitidamente e constantemente aquelas gotas do outro lado do salão, no andar de cima, eram como ponteiros de um relógio, no entanto, menos precisas, eram gotas de algum cano velho que os anos fizeram com que se infiltram-se no teto e caiam constantemente me ajudando a focar meus sentidos. As noite se passaram sem que aquela figura retornasse para me atormentar, mas a visita daquele que usava uma loção pós barba fedorenta era constante.

Todas as noites ele vinha deixar garrafas e o odor daquele loção pós-barba barata, aquele odor me fazia lembrar a minha infância nas colônias em Jerusalém, principalmente um senhor que tinha sobrevivido ao holocausto, um dos poucos que conheci. Lembro que falavam pouco sobre isso, como algo que necessitava ser lembrado e ao mesmo tempo esquecido. Naqueles dias que passei ali, não sei porquê, mas me faziam lembra da minha infância na colônia, acho que porque me sentia muito como uma criança, aquele sentimento não me fazia bem, mas por diversas noites não tinha sido capaz de mudar isso.

Eu precisava me concentrar, aguçar minha nova visão, audição, olfato, precisava saber os limites, então aquelas gotas, vinha bem a calhar, eu podia sentir o lugar ao meu redor, os batimentos cardíacos de animais pequenos, como ratos, serpentes, sapos comendo mosquitos. Principalmente aprendi a sentir a chegada desse homem que me deixava essas garrafas.

Nas primeiras noites mentia para mim mesmo, como que se me entregasse totalmente a um sonho distante na minha mente, aos poucos eu tive aceitar, pois algo dentro de mim, mais forte do que qualquer impulso que senti antes daquelas noites, me falava a verdade sobre o líquido viscoso dentro daquelas garrafas, eu me perguntava como seria quando eu mesmo precisasse pegar direto da fonte.  O liquido era frio, como a morte, algumas vezes diferente podia sentir as pequenas diferenças com meus sentidos novos, as vezes conseguia até imaginar de onde vinha aquele líquido. Esses devaneios eu tinha que conter, porque sabia que significaria parte do que restou da minha humanidade, naqueles dias mal sabia eu que aquilo que chamava-se humanidade era apenas uma atuação que ficou de uma vida passada, mas não irei adiantar, nada, pois a única coisa que conseguida pensar era que precisava a todo custo acordar mais cedo, eu precisava está ativa quando aquele homem viesse deixar minhas garrafas.

Mas isso não era mais tão simples,era muito difícil, tão difícil quanto acordar cedo depois de dias trabalhando sem parar, dormindo tarde, era pior, como se eu estivesse em uma espécie de coma induzido, meu corpo ficava muito pesado. Todas as vezes que consegui acordar um pouco mais cedo o máximo que conseguia era abrir minhas pálpebras para olhar ao meu redor, podia sentir a mudança de temperatura quando a noite se aproximava, nossa eu sentia a umidade do ar mudando enquanto o sol ia se pondo, apesar da escuridão naquele lugar ser constante, sabia que existia diferenças gritantes entre a escuridão do dia e da noite, algo que não conseguia perceber enquanto era humana, enquanto era viva, mas agora eu podia não apenas perceber com meu corpo, eu podia pressentir, muitas vezes estava certa sobre meus pressentimentos.

Eu precisava de uma chance, eu precisava lutar, eu precisava matar... não apenas por um impulso dentro de mim, mas para por em prática meu plano de fuga, pelo menos eu repetia isso para mim mesma constantemente. E a medida que os dias seguiam, eu sentia-me mais forte. Eu podia sentir uma força interna.

Eu não comia, só sentia sede, a única coisa que tinha para beber eram aquelas garrafas que eram deixadas pelo cúmplice do meu algoz, eu precisava jogar com as novas regras do jogo. Mas como eu disse, era saboroso, mesmo que gelado. Eu lembro que criei uma rotina para os dias bons, eu me levantava e caminhava pela minha prisão sempre que tinha certeza de está sozinha. Eu procurava detalhes que antes não poderia enxergar, nossa era como se pudesse ver todas as tonalidades da escuridão, com todas minúsculas diferenças, estava aprendendo a me acostumar como meus novos sentidos.

Bem, havia dias ruins, dias que não conseguia me levantar, dias em que a luta era comigo mesmo naquele porão escuro, nesses dias nem se quer mexia nas garrafas deixadas pelo cúmplice, eu abria e fechava os olhos me sentido frágil, desolada e sem sentido de continuar vivendo. Eu entendi que aquele monstro que me mantinha em cativeiro tinha feito algo comigo, mexido profundamente como minha mente. Nos dias piores eu podia quase alucinar, com coisas, como se pudesse ver e ouvir coisas que não estavam lá, minhas alucinações envolviam mulheres e homens dos anos 30, podia ver eles caminhando entre os salões, enquanto eu estava amarrada psicologicamente aquele leito velho e quebrado.

Nos dias piores dormia mais que um dia, acordando como uma sonâmbula para beber um pouco do liquido da garrafa, eu achava que estava passando por um esgotamento físico, por não comer como deveria, por está me alimentado por líquidos apenas. Mas não quero levar vocês para esse buraco de merda que é minha maldição, mais tarde eu descobriria que o dom das trevas é diferente para cada um mesmo, inclusive as maldições do sangue.

Eu continuava focada em fugir, um dia eu consegui acordar mais cedo do que de costume, bem mais cedo, lembro que na noite passada a isso, eu fui deitar com esse pensamento fixo, lembro que cheguei a sonhar com o túnel por onde o cúmplice entrava e saía, ouvir seus passos se aproximando.

Eu acordei de sopetão, sabia que era mais cedo, porque sentia o calor atravessando a madeira velha e o ar da noite ainda não se apresentava, era perto do por do sol, eu precisava estar pronta, eu sai do porão, nunca tinha saído naquele horário. Quando abrir a porta vi a iluminação do dia atravessando o salão, mesmo na penumbra onde me encontrava, meu corpo estremeceu.

Por deus aquilo iria queimar meus olhos, eu fiquei em pânico, toda a minha vontade anterior, todo o meu plano foi por água a baixo, como meu corpo não fosse meu fui me inclinando e comecei a chorar, soluçando, aquela luz parecia que iria me tocar a qualquer momento, o cheiro do calor também. Eu fiquei tonta e cai para trás, entrando novamente no meu quarto. 

Minha boca estava seca, eu fui correndo na direção do canto mais escuro do quarto, onde me encolhi, fiquei imóvel e paralisada olhando para a porta. Entre meu desespero não consegui distinguir os passos que vinham pelo corredor, aos poucos fui me controlando, lembrando dos meus objetivos. Instintivamente pensei em correr para a cama e fingir sono, mas os passos estavam perto demais, não haveria tempo.

E não houve, a porta de abriu e pude ver o cúmplice com aquela maldita loção pós-barba, ele era branco, mais alto que eu, tinha um corpo grande e constituição forte, mas vestia roupas que pareciam de um enfermeiro ou um maqueiro de hospital, ele olhou para a cama e ficou estarrecido de não está ali.

 - Puta que paril, cadê ela?

Eu estava no canto escuro do porão, parada e olhando a cena, imóvel. Ele olhou a cama, olhou ao redor em uma atitude simples, que poderia me ver facilmente, mas seus olhos passaram por onde eu estava, como se estivesse ludibriado pelos seus próprios sentidos, ele não me viu .

- Não, não, não.... ele vai me matar!! Eu fiz tudo certo.... não deixei o portão aberto!!

Ele correu para olhar em baixo da cama, enquanto eu observava o pobre diabo desesperado, eu vi a oportunidade certa, ele daria trabalho pelo tamanho, mas se fosse rápida suficiente poderia com um golpe acabar com tudo. Eu sabia o que fazer e fiz.

Eu corri e saltei para chutar com a força do meu peso a costa dele, eu bati com tanta força que pude sentir as articulações da vértebra estalando, ele gritando desesperadamente, rapidamente lancei meus braços em um mata-leão, apertei minhas pernas contra sua cintura e inclinei meu peso para frente. No exato momento em que tentava puxar o ar com o grito de dor, ele engasgou, tentou uma reação em vão, suas mãos não acharam nada, o mata-leão estava bem encaixado, se fosse um lutador daria mais trabalho, mas não houve contra ataque, ele ainda tentou se levantar, mas foi em vão, aos poucos senti seus músculos enfraquecendo, ele desfaleceu, se apertasse um pouco mais poderia quebrar a traqueia, mas eu tinha planos para ele.

Tudo foi tão rápido, que não consegui pensar direito, primeiro aquele desespero fora do normal com a luz do dia, depois o porque dele não consegui me enxergar eu estando praticamente em sua frente e ainda o que diabos eles queriam comigo. Arrastei o cúmplice de volta para a cama, peguei alguns lençóis e rasquei, fazendo uma corda improvisada, era uma precaução mais psicológica que de fato um meio, depois fui investigar o que ele tinha, uma carteira, um 38, abri o tambor, tinha quatro balas, eu não precisaria de tantas. Eu fui ver a carteira, um nome e um endereço, Andrew, enfermeiro do sanatório local de Rotton City.

 Eu sentei ao lado dele na cama, enfiei o revolver na boca dele tão fundo até ele engasgar e acordar, o filha da puta pensou que eu ia tirar né, mas deixei dentro da boca dele, enquanto engasgava, com os olhos vermelhos, tentando respirar.

- Boa noite Andrew, acho que você me deve algumas explicações! Mas primeiro, e mais importante, quem é o Marcos e porque estão me deixando aqui? – ao perceber que ele iria cooperar, fui tirando o 38 da sua boca, mas ainda apontando para sua cara, ele estava cagado de medo, e eu iria fazer com que continuasse daquele jeito.

- Ele é o dono do sanatório da cidade! Ele é um senhor da noite, como você, senhora! Ele é um filho de malkav como a senhora! Eu sou apenas um servo, por favor não me mate!

- Que merda é essa que você esta falando Andrew? Que porra é essa de senhor da noite seu fudido....
Eu puxei o cão do revolver, o barulho fez ele arregalar os olhos ainda mais, eu podia ouvir o batimento cardíaco dele como um barulho de ventilador em quarto, a gente sabe que está ali, mas não é algo que incomode muito.

- Senhora... senhora... eu juro, eu estou aqui para cuidar da senhora, até que se recupere... senhor Marcos me deixou responsável... por favor senhora!

Que merda era aquilo tudo, que porra, era essa, eu fiquei pensando por um momento ou dois, enquanto meus dedos instintivamente deslizavam pelo gatilho, o cheiro de pólvora, o suor que escorria pela face dele, em meio a tanta coisa eu percebi algo que era obvio, mas tão ofuscado de minha mente, em meio aquilo tudo, aquele esforço que fiz para me mover mais cedo, em meio a toda aquela adrenalina, eu percebi como uma pedrada na minha cabeça, que diferente de Andrew.


- Eu não estou respirado!?

sábado, 15 de abril de 2017

Contos Sangrentos do Sabá: Valentine - Cap II

II
Havia uma penumbra entre a gente, a escuridão cobria metade do rosto de Marcos, seu cabelos crespos caídos até os ombros me lembravam aquelas fotos de anjos que vi na infância em Jerusalém, seus olhos tinham um tom acinzentados, que me deixava muito desconfortável. Eu estava naquela cama, sem minha faca. Não havia janelas, provavelmente um porão ou um soltão, o cheiro de poeira era muito forte, estranhamente eu conseguia ouvir os carros que passavam em alta velocidade em uma rodovia mais ao norte.

Eu não sabia do que se tratava na época, mas um complexo de sensações me invadiu.

Me chamo Marcos, essa é minha casa, devo lhe dá os parabéns, é muito difícil matar alguém da minha espécie – sua voz parecia tão nítida que nem parecia está do outro lado daquele quarto, parecia que estava falando ao meu lado, o mais estranho que estava tendo a sensação que ele estava apenas sussurrando – Muito bem Valentine, eu não sou o capeta, eu sou o que na literatura vocês chamam de vampiro, da mesma espécie daquele que você trucidou no beco, mas de famílias diferentes.

Eu estava calada, eu apenas estava prestando atenção, o movimento das chamas das velas me deixava muito distraída, extremamente distraída, isso era muito irritante.

Eu quero que saiba que o dom da morte é diferente para cada um de nós, mas temos dons em comum por sermos da mesma família, isso você aprenderá em breve, para mim foi muito difícil mesmo decidir se deveria lhe salvar, pois isso seria um problema. Mas acontece que aquele bastardo invadiu meu território, eu tinha uma dívida com você princesa, então...

Não me chame de princesa! – eu o interrompi, menos conscientemente do que imaginava, algo me empurrava, como uma coceira na nuca, eu deveria pular nele e matar agora aquele desgraçado maluco e segui meu caminho o mais rápido possível daquele lugar.

Perdão, eu não queria causar um desconforto, acontece que você morreu, sem sombra de dúvidas, você morreu mesmo! Nossa, como ia dizendo, poucos humanos poderiam matar alguém da minha espécie, achei que alguém tão especial como você merecia viver um pouco mais. Por isso eu lhe transformei.

Como é que é?! Que papo escroto é esse bixo? Me transformou no quer seu fudido?

Não use essas palavras de baixo calão comigo jovem. Se não terei que lhe por em seu devido lugar!

Naquele momento eu não aguentei, pulei da cama na direção dele, ele sumiu no mesmo momento, como se não estivesse ali, eu o procurava, pela quarto, quando senti atrás de mim um sussuro.

Durma!

Não era apenas palavras, era uma força maior sobre mim, eu apenas cochilei e novamente perdi a consciência. Eu lembro de sonhar com a Nicarágua novamente, lembro de uma noite de céu limpo, estávamos em uma clareira conversando sobre a revolução cubana

Estava eu  e João 

Valentine, o que eles fizeram em cuba é que devemos fazer na América Latina, devemos instruir o povo, pegar nas armas e expropriar os latifundiários da Nicarágua.

João eu sei bem disso, mas a instrução precisa ser emancipatória, não podemos seguir a cartilha da União Sovietica sem questionar.

Companheira, mas lá deu certo, vai dar certo aqui também. Em cuba o programa educacional já ta dando frutos.

É mas e as artes, os estudos da literatura... e...

Qual é Valentine, vamos criar nossa própria literatura, o resto é material de propaganda capitalista, aqueles romances burgueses só aprisionam nossas mentes.

Porra João não me interrompe, que caralho, mania de vocês de interromper as mulheres porra!

Estávamos debatendo educação popular, programa revolucionários, experiências, não sei se foi uma lembrança ou um sonho, não faço ideia ao certo, só sei que eu podia quase sentir a leve brisa, minha farda molhada pela umidade da floresta, o cheiro da comida que estávamos fazendo na fogueira. Eu lembrava do rosto do João antes da morte dele, era um rosto brilhante, ele tinha forte traços indígenas, vinha de uma família de campesinos do sul do México, ele era um ótimo atirador, lembro que trocamos muitas técnicas, eu podia passar a noite inteira conversando com ele sobre socialismo, capitalismo, sobre política. Nossa eu nunca mais sonhei com aquele momento de novo, nunca mais eu sonharia, só teria a lembrança desse sonho confundida com minhas próprias lembranças do João sendo atravessado por um tiro de fuzil.

Eu acordei de novo, não sei quando tempo havia passado, ou quantos dias tinha passado, eu tinha uma sensação estranha, a raiva que tinha dele havia passado, era como se fosse outra pessoa.

Valentine, deixe-me continuar, você precisa entender que, você morreu e que mesmo assim continua viva! Você recebeu o dom da noite, ou o dom das trevas.

Eu apenas encostei minha cabeça em um travesseiro amassado e sujo, fedendo a um alvejando antigo, nossa podia sentir o odor do ultimo ser humano que usou aquilo, e algo me dizia que fazia tempo, muito tempo.

Não vou lhe dizer sobre os primeiros da nossa espécie, nem nada disso, isso se quiser mais tarde vai descobrir sozinha ou com minha ajuda, ou nunca vai descobrir. Mas saiba que somos uma sociedade, uma sociedade que esconde-se da vista os humanos, por motivos óbvios. Você não conversa com a vaca ou a galinha antes da refeição não é? E não se engane o que resta de humano em você deve durar no máximo uns cinquenta anos, depois disso, acredite é só ladeira abaixo.

Eu sei que você não está entendendo, mas isso faz parte do dom, você se tornou parcialmente imortal, a não ser que alguém no beco arranque sua cabeça! – ele gargalhou nesse momento – Desculpe minha empolgação, mas é hilário, de fato é hilário!

Ele começou a rir descontroladamente, sem parar, no inicio era como se estivesse apenas debochando, depois o riso foi ficando cada vez mais tenebroso, aquilo me assustou muito, mas mesmo assim eu estava quase como se tivesse sido dopada, pensei que ele havia injetado algo em mim, na verdade ele estava dominando minha mente aos poucos.

Nossa como isso foi engraçado não é? Então em nossa sociedade, um clube seleto de mortos vivos seculares que ficam se matando por território, prestigio e as vezes por motivos até um pouco mais nobres. Agora você faz parte dessa camarilha, dessa corja de monstros. Mas acredite, somos civilizados, há piores!

Eu ainda podia sentir a raiva dentro de mim, querendo acabar com aquilo, sentar a porrada na cara de almofadinha desse Marcos, mas eu não conseguia, estava subjugada por algo que só entenderia anos depois.

Naquele momento eu só precisava sobreviver, um pouco mais. Precisava me libertar daquele loucura toda... Na verdade o que eu não sabia é que eu precisava me entregar aquela loucura toda.

Vivemos década após década, século após séculos, escondidos, nas suas instituições, em suas igrejas, em seus lares, passamos despercebidos, nos refugiamos em diversos lugares, na cobertura de edifício ou no porão de um casa abadonada, vagamos pelas madrugadas atrás da próxima vida que será tomada pra que possamos continuar vivendo. Não querida, somos piores do que demônios, nem se quer fomos anjos! Nos infiltramos em cada esfera de poder humano, estamos direcionando vocês conforme nossa vontade, agora você faz parte desse clube seleto e por mais que outros membros digam que isso não é verdade, é o que fazemos de melhor, nós somos monstros fingido ser humanos fingindo sermos monstros... isso é tão complexo não acha?

Eu só sei que eu dormir novamente, dessa vez eu não tive sonhos, tive uma espécie de delírio, sentia algo quente e suculento descendo por minha garganta, nesse delírio eu bebia sangue do braço de Marcos, eu sugava como se fosse uma fruta recém colhida, tentando não desperdiçar nenhuma gota. Esse sonho se repetiu por pelo menos três noites.

Depois de uma semana, naquele lugar, com as conversas que estávamos tendo, ele falando sobre famílias, linhagens, dons, tanta coisa, tanta coisa que eu não queria saber, eu apenas continuava deitada, como se estivesse para morrer, melancólica, não via sentido em nada daquilo, mas escutava tudo com calma, processando tudo aos poucos.

Ele continuou falar, chegou a falar algo sobre Caim e Abel, sobre o Dilúvio, sobre a idade media, coisas que não batiam com o que eu havia aprendido de história na colônia onde cresci em Jerusalém. Eu me sentia impotente diante de tudo aquilo de toda essa história.

Passou-se cerca de duas semanas, ou mais quem sabe, uma noite acordei e ele não estava lá. 

As velas acesas, eu com a mesma roupa, notei que não transpirava, notei que os dias estavam mais frios, aos poucos descobrir que não podia mais ver a luz do sol, que isso era nocivo, ele não me disse, foi algo que captei no ar, uma sensação, mas isso não era um problema eu se quer conseguia ficar acordada, os dias se tornaram noites eternas. Em um quarto empoeirado, finalmente ele não estava ali, com suas explicações que eu não queria, com sua gargalhada que feria minha cabeça, com esse ódio e amor que passei a sentir dele. Maldito!

Levantei lentamente, ainda me sentia letárgica, mas mesmo assim precisava tentar achar uma saída, de fato era um porão improvisado, que virou um quarto, eu caminhei por entre cômodas velhas caindo aos pedaços. Fui na direção da porta e não estava trancada, o que me pareceu muito estranho. Imaginei que como na primeira noite, ele iria aparecer e sussurrar no meu ouvido para dormir novamente.

Eu abri a porta, uma escada velha dava para um próximo andar, fui subindo, o ranger das escadas pareciam mais motores de Ford roncando, eu tentando ser silenciosa, mas eu não estavam bem, era como se não fosse eu, mas era eu.
Subi as escadas, a escuridão era total, me deparei com um salão antigo, amplo. Um chão quadriculado, de um lugar que algum dia poderia ter sido um  bordel nos anos 30, bem antes deu nascer, mesas e cadeiras velhas cercavam um pequeno palco improvisado e no fundo um bar, ou somente as prateleiras do que um dia foi um bar.

As coisas novas eram madeiras que estavam na janela, era muito mais novas, estavam pregadas e pareciam bem firmes, notei nesse momento o quanto meu olhar estava aguçado, porque consigo ver tudo isso com um pouco de luz que entrava por um buraco no teto, uma luz da lua, não a luz do dia. Podia sentir inclusive a brisa do outono que soprava do lado de fora, podia sentir finalmente um perfume barato, provavelmente masculino, que  deixou um rastro.

Era um perfume que sentia todas as noites, mas pensava esta alucinando, pensei nas primeiras noites que era o perfume de Marcos, mas o cheiro era diferente, alguém era cúmplice no meu cativeiro, alguém que trocava e acendia as velas. Esse alguém tinha a saída do meu cativeiro.

Eu fui seguindo aquele perfume leve, como um caçador segue uma presa, eu achei algo que devia ser secreto, um alçapão. Eu abaixei para pegar um pedaço de pau, aquilo que um dia foi um pé de cadeira, senti a consistência para saber de garantiria pelo menos um ataque bem sucedido, a madeira parecia boa.

Abri o alçapão e desci por ele, era um túnel, pouco maior que, com meus 1,65 de altura, alguém mais alto teria que se curvar para andar, segui pelo túnel, não conseguia enxergar nada, mas sentia o cheiro do perfume barato, que passou diversas vezes por aquele lugar, apenas continuei seguindo, seguindo, por vários metros. Até que avistei como se fosse dia luz do luar mais a frente e a brisa de outono que atravessava por uma saída.

Corri, corri mais rápido que pude, para dar de encontro com uma grade de ferro reforçada, com barras de mais de uma polegada, com um cadeado tão grande quanto, aquela era a saída sem dúvida, mas eu precisaria de um plano bem elaborado para poder saí daquele lugar.

Mas eu sempre fui uma menina paciente, eu só precisava sobreviver, um pouco mais, apenas um pouco mais...

Contos Sangrentos do Sabá - Valentine - Cap 1

I
Não vou mentir, eu sou uma vampira, sou desde o final dos anos 60, quando fui abraçada na porra de uma cidade no meio oeste dos Estados Unidos, eu jamais quis isso. Eu nasci em 1945, e tive uma vida... como posso dizer... pouco convencional, mas minha vida por enquanto não é tão importante quanto o que aconteceu e não vou começar com: eu cresci, eu vive... blá blá blá. Mas vocês que estão lendo precisam saber que sou uma maldita fudida, boa de porrada e extremamente treinada na arte de matar como primor.... isso antes de eu me tornar uma vampira, depois a coisa foi só piorando.

Em Setembro de 1966 eu estava na merda, eu estava muito na merda, quando se é uma guerreira como eu, a morte sempre parece espreitar em cada esquina e em cada porra de arvore, de dia ou de noite, depois de um tempo toda aquela coisa de causa serve para manter um pouco de sanidade, uma sanidade que vai se deteriorando aos poucos, todo militante sabe como  é isso, há dias ruins e dias piores.

Lá estava eu, na Nicarágua junto com forças revolucionárias, com alguns companheiros cubanos e ex-combatentes da revolução espanhola, articulávamos um levante contra um ditador, que hoje nem me lembro o nome. Mas era um escroto apoiado pelo tio Sam, que merda eu odiava tanto os Estados Unidos que se me dessem um rifle eu acabaria com o presidente num psicar de olhos, quem nunca quis matar uns malditos políticos almofadinhas que roubam o dinheiro do povo, exploram nossas terras e continuam impunes? Vai me dizer que vocês nunca quiserem isso? Uma ova, no fundo todo mundo tem uma gota ou duas de revolta, eu tinha um poço e sabia bem como direcionar.

Tava tudo perfeito, íamos tomar uma base militar estratégica, outros grupos revolucionários já estavam indo em outro direção para garantir a proteção de algumas aldeias, tava tudo nos conformes, mas a verdade que alguém caguetou o plano, eu estava na ala sul com outros três companheiros, eu liderando, quando fomos cercados por forças militares, eram mais que companheiros, eram família, os militares não contaram conversa, meteram bala em todo mundo. 

Eu vi sangue, para todo lado, eu saquei uma granada, nessa hora um tiro atravessou meu ombro, joguei ela entre o grupo de militares e a gente, um dos meus já tinha caído. Os estilhaços de fragmentação acertaram todo mundo, eu estava coberta, eu vi a mandíbula de um amigo sendo atravessa por pedacinho de fogo, em uma mistura de dor e em um cena infernal ele deu adeus a esse mundo.

Eu segui, atirando contra os militares torcendo para que os desgraçados não me flaqueassem até eu chegar na rota de fuga, minha própria rota de fuga, João entrou na minha frente e levou  um tiro por mim, ainda lembro do sangue respingando no meu rosto... que merda até hoje eu sonho com esse sangue no meu rosto... tem dias que fico lavando o rosto na esperança que suma de vez....

Eu consegui fugir, consegui sai do país e fui para o México... Meu corpo porque meu espírito ficou quebrantado... os meses seguintes foram... difíceis de descrever... lembro da rua... lembro de catar comida... de correr da policia... de matar policiais... Não lembro como cheguei na porra daquela cidade onde eu iria morrer.

Era uma cidade pequena, acho  que cheguei de trem por lá, estava. Naquela época você via diversos outsiders andando de um lugar para o outro, enquanto a porra dos hippies curtiam a liberdade e a era de aquária, tinha muita gente ferrada por causa das guerras. A guerra nunca muda, mas as pessoas.
Eu lembro que cheguei pelos trilhos do trem, junto com um grupo de moradores de rua, os caras eram legais, mas devo dizer que não lembro muito dessa época, deve ter sido o trauma, deve ter sido o monte de merda que fica zumbindo na minha cabeça. Só sei que cheguei em um dos distritos dessa cidade e fiquei um tempo em beco, pegava comida do lixo mesmo. Uma noite a porra de um homem veio para cima de mim, eu já tinha lidado com tipos desses antes... muito antes do feminismo radical falar sobre autodefesa, eu já sabia me defender muito bem.

Em principio, a mesma coisa, o mesmo papo, esperou eu ficar sozinha, eu tinha avistado o fudido a duas quadras me seguindo, deixei ele morder a isca, ele veio pra cima. Foi tudo bem rápido, um piscar de olhos, ele me agarrou, os braços deles eram um pouco mais fortes do que eu tinha calculado e extremamente frio, eu deixei-me levar e com a força dele aproveitei para dar uma cabeçada no nariz do patife. Eu senti quebrar o nariz, mas ele não me soltou, o que era estranho, esses fudidos covardes choram feito crianças ao primeiro sinal de reação.

Mas a cabeçada era só uma distração, para que ele não percebesse eu pegar a faca, mas ao invés de me soltar, ele me mordeu, hoje entendo muito bem, mas na época eu imaginei que fosse um doido desgraçado, ele me mordeu e em segundos me senti fraca, por um momento eu senti vontade de me entregar aquele abraço, mas que mera eu não ia fazer isso.

Eu girei meus calcanhares, girei o quadril, coloquei a perna por trás dele tão rápido que ele nem sentiu, ele desequilibrou como o previsto e caiu, mas mesmo assim ele não me soltou, percebi por um segundo que ele estava sugando meu sangue... o que quer que fosse aquilo eu iria morrer, mas assim como ele me levou para o chão eu ia levar ele comigo para o inferno.

No chão, ele me apertava mais ainda, aproveitei para esfaquear a coxa dele, tão fundo e no ponto certo para acertar a sua artéria, quando senti a faca atravessar e chegar no ponto certo, girei o cabo, seria uma perna a menos com que me preocupar, dessa fez ele afrouxou o aperto e largou meu pescoço, girei tão rápido quanto podia para o lado, desferindo uma outra facada, dessa vez abaixo do braço esquerdo,havia sangue para todos os lados, eu estava sangrando... ele estava sangrando.

Ele tentou segurar um dos meus braços, que tolinho! Eu finquei a minha faca no antebraço dele e joguei meu corpo para trás, a tração arrancou músculos, pele e mais sangue, dessa vez ele gritou. Normalmente em uma luta com facas o primeiro golpe já teria sido o suficiente, mas o que estava na minha frente era um animal, um bastardo, quando ele gritou eu vi suas presas. Era um vampiro, hoje eu sei, na época eu pensei que era loucura.

Eu joguei meu corpo pra trás e rolei de costas, levantando, mas o sangue escorria tanto que já me sentia tonta, sabia que meu próximo golpe seria o último, já estava me dando por vencida, eu então saltei em cima dele, dando uma chave de pernas, prendendo o outro braço e o pescoço juntos, usei a faca como apoio para puxar o mais forte possível, cravei na garganta dele e apertei a chave de pernas com o resto de força que tinha, eu senti o pescoço dele quebrar. E o sangue escorrer, mesmo assim ele ainda estava vivo, mas já não era mais ele, era uma besta, olhos vermelhos, ensaguentado, desferir outra facada no mesmo lugar, como mais força, isso fez sua cabeça pender como se fosse um saco, depois outra faca para separar as vértebras, a faca quebrou no osso do desgraçado e minhas mãos se cortara, mas sabia que não podia parar.

Eu usei minhas mãos para puxar a cabeça dele do corpo, a pele rasgava, mas não é uma coisa fácil de se fazer, a nossa pele não rasga tão fácil assim, meti meus dedos nos olhos desse desgraçado e fui puxando como se não houvesse amanhã, e não havia, só percebi que ele não se mexia, depois dar uma outra cabeçada na cabeça desesperada. 

Nessa hora eu chorava em desespero, estava deitada numa poça de sangue, sentindo aos poucos minhas pulsações aceleradas bombeando mais sangue para fora do meu corpo, estava com minhas mãos na ferida que o desgraçado tinha feito.

Eu olhava o céu, não havia estrelas, eu escutava barulhos vindo de fora do beco, aos poucos em sentia muito frio... nas minhas pernas... no meu corpo... era o fim. Eu aos poucos fui me acalmando.

Era aquele meu fim, morta sabe lá porque em um beco em uma cidade que nem lembrava o nome, morta por uma coisa que nem sabia o que era, anos de treinamento miliar, anos na selva, escapando de balas, bombas e minas, para morrer numa cidade para uma coisa como aquela, eu respirava fundo tentando me consolar.

No final a morte não é legal, eu nunca quis morrer, apesar e saber que um dia isso iria me acontecer, mas a gente sempre nos vê velho, mas aquilo, meu deus. Aquilo era surreal, eu lembro de ter sorrido que merda aquela coisa também nem imaginaria que eu iria reagir daquele jeito, eu gargalhei de nervosa. Eu ia morrer naquele beco, caminhei tanto para morre ali

Então tudo foi ficando escuro, não teve nenhum túnel de luz, não teve ninguém que eu conhecia me dizendo: – vá para a luz, vá para luz! 
Eu apenas parei de respirar em algum momento e minha consciência desapareceu.

Eu acordei, porra o pior de tudo isso é que depois que eu aceitei que ia morrer, eu acordei de novo, mas não estava no beco, estava em uma cama, estava tudo escuro e velas cercavam uma cama de casal surrada, um cheiro de poeira no ar, eu estava com outra roupa, um vestido velho, que cheirava a merda, eu estava ali em uma casa abandonada, sem nada por baixo, com um vestido de uma velha morta.

Eu nunca fui uma donzela, eu acordei puta da vida, achando que era o inferno e eu ia sentar a mão no capeta. Quando uma voz vinda de um canto, como se estivesse sempre ali desde que abri meus olhos, nos poucos segundos que retomei a minha consciência.

- Eu não sou o capeta Valentine, eu me chamo Marcos! E vamos ter uma conversa!

A única coisa que eu pensei foi, puta que o pariu filha de uma puta!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Prelúdio: Olhando além do Véu



23 de Dezembro de 2015, Armazém na 138 Street com 5ª Av, Harlem – Nova York

Do outro lado da rua era visível observar o Harlem Hospital Center, um complexo que ocupa uma quadra inteira no Harlem, no armazém vazio, um homem observa as pessoas entrando e saindo do hospital, ele tem uma cara larga e um olhar quase vazio , ele tem cabelos crespos e traços latinos, um olhar cansado de um homem de mais de 40 anos de estrada, ele apenas observa as pessoas entrando em saindo.
Em um carro velho na parte de baixo do armazém ao lado de um van marrom, com os pneus já gastos Ralph, pensa muito a respeito do que estão fazendo ali naquele momento.
 - Hey Clark, qual é cara o que ta faltando? Já se passaram 15 minutos...
- Calma man, calma, tudo é uma questão de calma! – ele responde acendendo um cigarro velho, na primeira tragada ele sente o gosto amargo de um Lucky Strike passado, mesmo assim ele continua a fumar.
- Então, você vai me dizer o que estamos fazendo aqui?
- Estamos aqui esperando a Leona, ela precisava falar com alguém, algo muito importante!
- Qual é cara?! – Esse lugar é maior zona, a gente nem  devia estar aqui! Ta frio pra cacete!
E estava mesmo, Clark sabia que não deveriam estar nesse lugar, que já deveriam ter saído daí há pelo menos duas horas, mas ela insistiu que precisavam parar naquele lugar para conversar com alguém, então mesmo contra seus instintos de sobrevivência eles pararam.

Ralph estava entediado, abriu a porta de trás da van, para dar uma olhada no pacote...
O pacote tinha um pouco mais de 1,70, pesava uns 80 quilos, estava com um sobretudo velho desbotado e tinha uma tatuagem escrota no meio da testa com um simbolo que Ralph não reconhecia, ele estava acorrentado dos pés a cabeça em uma cadeira de ferro, talvez o único artefato que poderia parar alguém daquele tipo.
Ele fita Ralph....
 - Qual é Ralph, você sabe que já deveriam ter saído daqui, você entende que deveríamos estar todos mortos, que existe algo errado com o tempo e com vocês, na verdade vocês deveriam ser poeira de estrelas nesse momento.

Ralph ri

- Qual é doidão? Vai me dizer de novo a mesma história, a gente sabe bastante sobre a sua raça, sabemos o que andam fazendo, sabemos também que vamos acertar as contas com você.
- Não cara, ta tudo errado, isso já era pra ter acontecido há dezesseis anos atrás, ta tudo atrasado, tem algo  errado com o mundo e você sabe, pode sentir cada partícula se desfazendo por debaixo dessa pele. -  o homem acorrentado arregala bem os olhos para Ralph
- Olha, entoa me conta o que aconteceu?
 - Você quer saber Ralph? Eu te conto, te conto como essa merda todo está errada....

Eu vi além do véu garoto, eu consegui ver além do véu, há mundos paralelos, tudo não passa de um grande jogo e os deuses lançam seus dados sobre nós, eu sei  e você sabe, tudo era para ter acabado em 2002, era o fim do mundo, a criança com a marca da lua nasceu, os assamitas quebraram a maldita maldição, você entende, o milênio virou, mas nada aconteceu, porque as torres gêmeas caíram, você sabia, tudo porque o maldito rebanho mudou o curso da Geheenna, tudo mudou e nosso mundo não acabou, mas vai parar como um carro em alta velocidade que freia...
O que mudou? Então em nossa realidade, posso lhe dizer cinco coisas, um pacto demoníaco em Detroit feito por um vampiro tolo, o despertar de uma rosa em uma cidadizinha no meio-oeste, um demônio desperto – que não deveria ter sido desperto – em 1948 em Londres, um pergaminho trazido do abismo por um louco por poder e um viajante do tempo que roubou os itens do destino.
São tantas realidades que nem sei mais como mostrar, mas pelos menos dois demônios atravessaram para nosso plano nos últimos séculos, mas vou lhe contar, um vampiro chamado Marc Bloch achou que poderia ter o poder dos deuses em sua mão, ele foi dominado e acabou com cinco bandos juntos na cidade de Detroit antes de perder seu corpo completamente, em 2005, a cúpula Sabá escondeu tudo, mas os rumores e ecos do além chegaram, esse evento aconteceu em cinco outras realidades em anos diferentes... em outras isso nunca aconteceu.
A Rosa Dourada desperta em uma cidade no cú do mundo chamada Rottom City, através de manobras de anciões recém despertos em um rodamoinho de magia que impediu o despertar dos antidiluvianos em nossa realidade, isso alterou as relações entre céu e inferno e os mundos dos mortos... Hal Silverstone apenas atrasou o inevitável, quem diria que um membro do Sabá e da Camarilla seriam os freios da locomotiva para o fim do mundo... como sempre a mão do destino sobre nossas vidas.
Mas algo despertou em Los Angeles no ultimo ano, Adaga de Babayaga... Ela viu, ela vive, ela está entre nós como os terrores das ultimas noites, ela tentou avisar Peter Vicent do inevitável, quem é Peter Vicent... você notou como está ficando escasso os Místicos do Abismo, você conta nos dedos.. algo no abismo irá retornar.... é o deus assassinado dos Lasombras, isso é visível, e Peter trouxe a última peça do quebra cabeça, o Pergaminho do Caçador, quem diria, quem diria...
E estamos aqui, eu já vi como essa história termina, mas quem sabe, outra realidade, outro final, há anciões despertando... as dores dos membros se aproximam na noite, uma estrela escarlate ainda brilha no céu... você sabem quem é, todos sabemos, mas ninguém tem coragem de dizer, a semana dos pesadelos aconteceu em 2013, em junho, muita merda aconteceu você sabe... Em outra realidade isso aconteceu em 1999.. ou em 1998, em 2001... Em outras isso nunca aconteceu.
E estamos aqui bem no meio coração do demônio Ralph, e você sabe o que deve fazer, você sente aquele comichão por trás da orelha e mesmo assim você fica.. mesmo assim você insiste... Quem sabe um pouco de sorte... né... O silêncio antes da tempestade, os antediluvianos são reais, eles são reais Ralph, eles estão empurrando a gente como uma corrente marítima empurra um barco a deriva, a gente pode até tentar.. mas só saltando do barco.
A menina com a marca de lua, ela cresceu, ela anda pela terra Ralph...

O vampiro acorrentado derrama um suor de sangue sobre seu corpo, Ralph fecha a porta atrás de sua risada nervosa, seu coração dispara, metade do que ele falou não fazia sentido algum para Ralph, mas ele pode sentir um medo profundo em seu coração, ele pode sentir o que aquele vampiro lhe dizia, ele ouviu falar de uma explosão em Detroit em 2005 que detonou um distrito inteiro – uma área industrial abandonada – seria apenas coincidência??


Ele vira para Clark no alto da janela, enquanto ele fita a janela, Ralph pensa E se for verdade?

terça-feira, 14 de julho de 2015

O FIM?



Pois é galera, a crônica de três anos chegou ao fim! Algumas pontas precisavam ser acertadas.

Como jogadores tivemos João interpretando o Lasombra Peter Vicent, Herbert interpretando William Evans, Gepeto intepretando cara grande Phill e Saulo interpretando El Pablo.

Infelizmente todas a sessões de jogo não foram possíveis de serem traduzidas para cá, até porque dá trabalho pra porra.

É provável que utilizemos um podcast como mecanismo de compartilhar as sessões com todos e todas que desejem.

Há um spin-off a ser lançado nos próximo meses chamado O Diário de Campo de Roberta Allen, uma NPC que foi construída por acaso na crônica que acabou sendo importante no enredo da história, Creio que até dezembro esse spin-off esteja finalizado. Vamos nos aprofundar um pouco mais na história dela, bem como tentar aprofundar um pouco mais no universo da crônica.

Boa parte das história foram fragmentos, algumas não foram acabados é melhor que seja desse jeito, águas passadas não movem moinho certo? Vamos tentar investir em um formato de áudio para as sessões e continuar postando contos curtos - bem curtos mesmo - para acrescentar as sessões.

A próxima crônica que iremos jogar se chama O Jogo de Sangue, irá se passar em Londres no ano de 1845. Não iremos seguir o material oficial a respeito de Londres produzido pela White Wolf, será uma adaptação como foi essa crônica que se passou em Los Angeles.

O Jogo de Sangue é um teste para a construção de um cenário mais autônomo.

Valeu ai quem lê e aguardem mais histórias.

Ultimo Gole - Epílogo


1 de Dezembro de 2013, Domingo. Edifício Vicent`s Tower. Cobertura. 3:00 Am

“Jack, Jack, acorda!”

Jack, ainda tinha parte de seu rosto queimado, depois da crise de abstinência que teve há alguns meses atrás agora ele só consegue dormir com drogas pesadas, ao ouvir a voz por um momento pensa ser seu mestre, novamente lhe chamando. Ele acorda assustado e olha para a poltrona a sua frente.

Está vazia, por um momento ele pensa em Peter Vicent, Jack utilizou todos os meios possíveis para achá-lo, mas sabia que enquanto mortal não seria capaz de acessar os mais perigosos e obscuros labirintos por onde os senhores da noite vagam. Ele começa a chorar, ao mesmo tempo que as dores de seu rosto retornam.

Ele levanta, vai até a sala, quer beber um pouco, ele enche um copo de Jack Daniel’s, respira fundo e senta no sofá, prefere não ascender as luzes, na esperança que seu mestre possa quem sabe aparecer em meio das trevas.

Uma voz suave rompe o silêncio daquele local

“Jack, eu posso me sentar?”

Seu coração dispara por um momento antes de reconhecer e lembra-se de quem é a voz, após um instante ele consegue responder, mesmo não sabendo de onde veio a voz.

“Roberta? É você?”
“Sim Jack”

Por um momento ele pensa está delirando, há mais de dois meses ele não tinha nenhuma notícia de nenhum dos companheiros de seu senhor e finalmente alguém, alguém lhe achou antes que pudesse se entregar ao desespero de uma existência sem notícias.

Roberta se senta em uma poltrona ao lado do sofá onde Jack estava sentado, com seu roupão, ele pode ver a silhueta da jovem talentosa lhe fitando, ele não sabe se ela está sorrindo, mas sabe que se ela o quisesse morto isso teria ocorrido a cinco minutos atrás, fora ela quem o acordou.

Talvez ela trouxesse alguma notícia de...

“Eu precisava conversar com você Jack, sobre a propriedade do bar” – ele sorri um pouco, aos poucos ele lembra o lote localizado na rua St Paul, no lado leste da cidade.

“Roberta, a propriedade foi interditada após os eventos de dois meses atrás, informei que tratou-se de um banho de sangue de uma gangue de drogas no local, que a Vicent Consultoria não dispunha de meios para saber o que houve! Paguei gente para sumir com o que quer que fosse criminoso”

“E os cômodos internos?” – ela fala olhando para a sacada da cobertura, buscando observar as luzes da cidade.

“A explosão de gás ocasionada pelo combate fez com que os bombeiros liberassem mais cedo o local” – Jack fala sorrindo e tomando um gole de sua bebida “Então eu tomei as medidas certas para que deixar intacto, não sei o que causou a explosão dentro bar mesmo”

“Foi eu, uma explosão controlada, não sabia se daria certo, por isso estou perguntando sobre o quanto a estrutura foi afetada” – ela fala, dessa vez olhando para Jack.

“Não faço ideia, há dois meses que não vou lá, se quer cheguei a ir mais fundo para verificar mais coisas... tinha a esperança que alguém aparecesse para me ajudar no que aconteceu”

“Você está falando de Peter não é?”

“Sim”

“Ele não estava no bar, ele na verdade sumiu na noite anterior, ele foi sequestrado”

“Peter me ligou naquela noite, falou onde estava, me fez reservar um jato para ele em uma cidade próxima, mas nunca apareceu, nunca deu notícias, eu continuei tocando os negócios na esperança que ele retornasse. Depois de um tempo enviei um dos contratados dele, um professor com poderes excepcionais em computação e um detetive bom, mas perdemos o rastro dele em algum lugar da cidade de Nova York.”

Roberta abaixa a cabeça um pouco, parece está envolvida por sentimentos, em um misto de tristeza e frustração. Ela se levanta e vai até o bar do apartamento sem acender luz alguma, ela pega um copo e uma garrafa.

“Sabe Jack, eu fico feliz em poder rever você, não foi difícil de te encontrar, precisava conversar com você, vou ficar algumas noites na cidade, tenho assuntos meus para resolver, queria saber se poderia contar com sua ajuda”

Ela retorna com um copo na mão ainda na penumbra que as sombras do quarto fazem.

“Senhorita Roberta, você sempre foi uma boa companhia quando estávamos trabalhando na reconstrução do refúgio do meu senhor, seria um prazer poder lhe ajudar”

“Tome esse gole aqui desse que eu fiz” – ela retira o copo da mão de Jack e lhe entrega outro, ele sente uma atração que até aquele momento ainda não tinha sentido por Roberta, sua voz suave parece tão gostosa de se escutar que Jack é incapaz de negar, toma o gole que lhe é oferecido.

Ele sente um leve sabor familiar, algo misturado a bebida que  faz lembrar um tempo bom, aos poucos Jack olha para seu copo e nota que é sangue, Roberta sorrir.

“Nada está perdido Jack, a noite sempre lhe proporciona uma nova chance, mesmo que seja uma nova chance para morrer”

Em transe Jack não nota seu sangue esvaindo-se enquanto Roberta suga de seu pescoço um gole a mais do que deveria, as sombras parecem se mover em sua direção e as luzes da cidade aos poucos se esvanecem.


Os imortais jamais terão pena dos mortais. 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Último Gole – Parte 2

28 de Setembro de 2013, 19:00, Sábado. St. Paul Street, East Los Angeles.

Do alto do prédio há duas quadras poderia ser facilmente visto um clarão que rompia entre intervalos que vinha da St Paul Street, mas quem olhasse mais de perto veria um verdadeiro pandemônio, a guerra entre os imortais era severa e altamente sangrenta.
Há cinco minutos atrás nada daquela cena parecia possível, era uma noite de sábado comum, em um bar que está prestes a ser aberto. William tinha acabado de aterrissar de voo vindo de Atlanta, seus olhos fitavam com calma o ambiente, ele poderia sentir a tempestade de fogo que se aproximava, mas todos do bar estavam fitando Isabela que conversava com Phill – que mesmo com seus quase dois metros e meios de altura parecia dominado pela presença carismática de Isbela – ela sorriu na direção de William.

O brujah sentiu o peso daquele sorriso, era como se estivesse adentrando sua alma na forma de uma nevoa, ele sabia que aquele era o sorriso da serpente na direção de sua presa, ele era a presa. O local estava cercado William não sabia de onde viria o primeiro ataque, mas sabia que nãos seria fácil, pensou em como ela conseguiu escapar na Cidade do México, lamentou pela morte de Samantha que com certeza era uma aliada digna.

Lembrou-se do terror que foi enfrentar Lâmina Negra, teve que se controlar para não tomar uma atitude desmedida, enquanto todas essas lembranças percorriam sua mesa, seu corpo  movia-se quase que em um modo automático, ele sentou em uma cadeira em frente a Isabela, ele segurava com sua espada, mesmo sabendo que não poderia fazer nada contra ela, havia um peso sobre sua mão, algo que ele sabia dizer ao certo o que era, não era nada físico.

Ele escutou ela falar sobre as peças que faltavam para o maldito ritual do antigo consorte dela, ouviu sobre alguma coisa relacionada a capela Tremere, sobre obrigações, mas na verdade sua cabeça estava em outro lugar, ele fazia um esforço para se manter concentrado naquilo que havia de mais importante, sua consciência.

Seu corpo concordava com tudo que saia da boca dela, mas sua mente fazia um esforço homérico para romper aquele encantamento. “Eu preciso resistir, não vou ter outra chance”, repetia como um mantra, como uma espécie de oração.

Ele concordou com os termos propostos por Isabela, eles iriam resgatar das mãos dos Tremere a última peça que precisava, levantou-se e foi lhe acompanhando até a porta, quando viu Lâmina Negra, ele se aproximava com cautela na direção de Isabela.

Algo no âmago de sua natureza selvagem rompeu o encantamento, um ódio que somente um guerreiro pode sentir, ele sacou sua espada tão rápido como um raio e decepou a cabeça de Isabela, o corte foi tão rápido e perfeito que lamina se quer sujou-se. De repente diversas sombras se tornaram em gentes, cópias idênticas de Lâmina Negra, ele lançou-se sobre um a um, na esperança de conseguir colocar um fim a toda aquela merda.
.....

Phill arrombou uma porta com um machado de 1,80 metros, após a queda das sombras que enfrentaram, havia sangue para todo lado, enquanto isso ele podia ouvir do lado de forma um verdadeiro pandemônio, balas voando para todos os lados. Ele via uma pessoa preprarando para lançar uma moto “Haley Daivson”  sobre um homem de 1,60, enquanto esse pequeno homem desviava de balas e enfrentava três outros oponentes ao mesmo tempo, do outro lado da rua, dois grupos até armados até os dentes usavam rifles como mangueiras de águas. Não havia tempo para pensar... Se lançou contra os inimigos sejam lá quem forem.

William viu em meio aos tiros outras sombras se formarem, em suas mãos lâminas em chamas, ele sabia que um deles seria o verdadeiro, que não permitira que a morte de Isabela fosse em vão. Ele sabia que aquela era sua luta.

Ele aparou o primeiro golpe de uma das sombras e contra atacou tão rápido que ela se despedaçou sem deixar vestígios, Phill deu um encontro em uma das sombras e girou o machado acertando uma massa gelatinosa que foi se desfazendo, uma granada que foi lançada ao seu lado quase lhe passou desapercebida, jogou seu corpo para trás de um dos carros na rua, a explosão derrubou dois outros membros. Um carro explodiu no fim da rua.

William atacava sem misericórdia qualquer coisa que se move-se em sua direção, Phill se lançou contra os homens armados na calçada atrás do carro que apontaram a arma em sua direção, eles foram mais rápidos e uma rajada de tiros perfurou seu corpo, ele se encostou em um poste enquanto o sangue escorria pelo seu rosto e pescoço.

Outra bomba explodiu ao seu lado, fazendo atravessar uma porta de concreto como se fosse papelão, ele segurou com força um pedaço de ferro que sobrou na parede enquanto se recuperava do dano levado.
....

William atacou o pequeno japonês que desviava de diversas balas e ataques empreendido contra ele, o viu atravessar o corpo de um dos seus aliados com um as mãos, arrancando o coração, atordoado pelo golpe. William girou sua espada na altura do pescoço do maldito que desviou levemente, um segundo ataque de William atingiu o vento, ele flanqueou o corpo dele e desferiu um golpe certeiro, o pequeno japonês desviou e tocou na lamina de William em um ponto específico que despedaçou, os estilhaços atingiram parte do rosto de William, o japonês aproveitou para atacar o peito dele com a mesma intenção de arrancar o coração, William girou o corpo de um modo que desequilibrar-se seu oponente, o japonês manteve-se em pé sem o menor esforço.

William era um artista marcial há anos, ainda não enfrentara um oponente que acerta-se o tempo certo dos movimentos, o japonês revidou, William rolou para fugir, mas não conseguiu esquivar dos fortes chutes que recebeu, ele segurou sua dor, deixou seu sangue ferver a ponto de sua pele ficar avermelhada e em um contra golpe inesperado atravessou sua mão no peito do japonês, os ossos da coluna do japonês estavam nas mãos de William, enquanto o buraco feito pelo braço de William queimava o resto do corpo daquele vampiro.

“Um adversário digno”

Um ataque furtivo empreendido por Phill contra uma das sombras, que pensou ser o verdadeiro Lâmina Negra, se tornou desastrozo. O verdadeiro saltou por cima de um carro e suspendeu Phill com poder telecinético fora do comum, em seguida chamas começaram a cobrir e queimar o corpo de Phill que gritava de dor, enquanto queimava Lâmina se lançou em um golpe final contra Phill.

William usou sua velocidade sobre-humana, juntou uma espada no chão e tentou um ataque pelas costas daquele monstro, ele percebeu a tempo e virou-se, em um piscar de olhos ambos se digladiaram, desviando e amparando o golpes de espada de um dos outros. Ambos estavam no mesmo nível acreditou William, mas Lâmina sabia que isso não era verdade, ele tinha mais habilidade que William, ele desarmou a espada de William em dois movimentos, que novamente queimou seu sangue em um ataque desesperado...a lâmina em chamas de Ravier atravessou o corpo de William no mesmo tempo em que seu punho acertou o pescoço em um golpe tão maciço que a pele de Ravier o Lâmina Negra se desfez.


Ambos caíram.