II
Havia uma penumbra entre a gente, a escuridão cobria metade do rosto de Marcos, seu cabelos crespos caídos até os ombros me lembravam aquelas fotos de anjos que vi na infância em Jerusalém, seus olhos tinham um tom acinzentados, que me deixava muito desconfortável. Eu estava naquela cama, sem minha faca. Não havia janelas, provavelmente um porão ou um soltão, o cheiro de poeira era muito forte, estranhamente eu conseguia ouvir os carros que passavam em alta velocidade em uma rodovia mais ao norte.
Eu não sabia do que se tratava na época, mas um complexo de sensações me invadiu.
Me chamo Marcos, essa é minha casa, devo lhe dá os parabéns, é muito difícil matar alguém da minha espécie – sua voz parecia tão nítida que nem parecia está do outro lado daquele quarto, parecia que estava falando ao meu lado, o mais estranho que estava tendo a sensação que ele estava apenas sussurrando – Muito bem Valentine, eu não sou o capeta, eu sou o que na literatura vocês chamam de vampiro, da mesma espécie daquele que você trucidou no beco, mas de famílias diferentes.
Eu estava calada, eu apenas estava prestando atenção, o movimento das chamas das velas me deixava muito distraída, extremamente distraída, isso era muito irritante.
Eu quero que saiba que o dom da morte é diferente para cada um de nós, mas temos dons em comum por sermos da mesma família, isso você aprenderá em breve, para mim foi muito difícil mesmo decidir se deveria lhe salvar, pois isso seria um problema. Mas acontece que aquele bastardo invadiu meu território, eu tinha uma dívida com você princesa, então...
Não me chame de princesa! – eu o interrompi, menos conscientemente do que imaginava, algo me empurrava, como uma coceira na nuca, eu deveria pular nele e matar agora aquele desgraçado maluco e segui meu caminho o mais rápido possível daquele lugar.
Perdão, eu não queria causar um desconforto, acontece que você morreu, sem sombra de dúvidas, você morreu mesmo! Nossa, como ia dizendo, poucos humanos poderiam matar alguém da minha espécie, achei que alguém tão especial como você merecia viver um pouco mais. Por isso eu lhe transformei.
Como é que é?! Que papo escroto é esse bixo? Me transformou no quer seu fudido?
Não use essas palavras de baixo calão comigo jovem. Se não terei que lhe por em seu devido lugar!
Naquele momento eu não aguentei, pulei da cama na direção dele, ele sumiu no mesmo momento, como se não estivesse ali, eu o procurava, pela quarto, quando senti atrás de mim um sussuro.
Durma!
Não era apenas palavras, era uma força maior sobre mim, eu apenas cochilei e novamente perdi a consciência. Eu lembro de sonhar com a Nicarágua novamente, lembro de uma noite de céu limpo, estávamos em uma clareira conversando sobre a revolução cubana
Estava eu e João
Valentine, o que eles fizeram em cuba é que devemos fazer na América Latina, devemos instruir o povo, pegar nas armas e expropriar os latifundiários da Nicarágua.
João eu sei bem disso, mas a instrução precisa ser emancipatória, não podemos seguir a cartilha da União Sovietica sem questionar.
Companheira, mas lá deu certo, vai dar certo aqui também. Em cuba o programa educacional já ta dando frutos.
É mas e as artes, os estudos da literatura... e...
Qual é Valentine, vamos criar nossa própria literatura, o resto é material de propaganda capitalista, aqueles romances burgueses só aprisionam nossas mentes.
Porra João não me interrompe, que caralho, mania de vocês de interromper as mulheres porra!
Estávamos debatendo educação popular, programa revolucionários, experiências, não sei se foi uma lembrança ou um sonho, não faço ideia ao certo, só sei que eu podia quase sentir a leve brisa, minha farda molhada pela umidade da floresta, o cheiro da comida que estávamos fazendo na fogueira. Eu lembrava do rosto do João antes da morte dele, era um rosto brilhante, ele tinha forte traços indígenas, vinha de uma família de campesinos do sul do México, ele era um ótimo atirador, lembro que trocamos muitas técnicas, eu podia passar a noite inteira conversando com ele sobre socialismo, capitalismo, sobre política. Nossa eu nunca mais sonhei com aquele momento de novo, nunca mais eu sonharia, só teria a lembrança desse sonho confundida com minhas próprias lembranças do João sendo atravessado por um tiro de fuzil.
Eu acordei de novo, não sei quando tempo havia passado, ou quantos dias tinha passado, eu tinha uma sensação estranha, a raiva que tinha dele havia passado, era como se fosse outra pessoa.
Valentine, deixe-me continuar, você precisa entender que, você morreu e que mesmo assim continua viva! Você recebeu o dom da noite, ou o dom das trevas.
Eu apenas encostei minha cabeça em um travesseiro amassado e sujo, fedendo a um alvejando antigo, nossa podia sentir o odor do ultimo ser humano que usou aquilo, e algo me dizia que fazia tempo, muito tempo.
Não vou lhe dizer sobre os primeiros da nossa espécie, nem nada disso, isso se quiser mais tarde vai descobrir sozinha ou com minha ajuda, ou nunca vai descobrir. Mas saiba que somos uma sociedade, uma sociedade que esconde-se da vista os humanos, por motivos óbvios. Você não conversa com a vaca ou a galinha antes da refeição não é? E não se engane o que resta de humano em você deve durar no máximo uns cinquenta anos, depois disso, acredite é só ladeira abaixo.
Eu sei que você não está entendendo, mas isso faz parte do dom, você se tornou parcialmente imortal, a não ser que alguém no beco arranque sua cabeça! – ele gargalhou nesse momento – Desculpe minha empolgação, mas é hilário, de fato é hilário!
Ele começou a rir descontroladamente, sem parar, no inicio era como se estivesse apenas debochando, depois o riso foi ficando cada vez mais tenebroso, aquilo me assustou muito, mas mesmo assim eu estava quase como se tivesse sido dopada, pensei que ele havia injetado algo em mim, na verdade ele estava dominando minha mente aos poucos.
Nossa como isso foi engraçado não é? Então em nossa sociedade, um clube seleto de mortos vivos seculares que ficam se matando por território, prestigio e as vezes por motivos até um pouco mais nobres. Agora você faz parte dessa camarilha, dessa corja de monstros. Mas acredite, somos civilizados, há piores!
Eu ainda podia sentir a raiva dentro de mim, querendo acabar com aquilo, sentar a porrada na cara de almofadinha desse Marcos, mas eu não conseguia, estava subjugada por algo que só entenderia anos depois.
Naquele momento eu só precisava sobreviver, um pouco mais. Precisava me libertar daquele loucura toda... Na verdade o que eu não sabia é que eu precisava me entregar aquela loucura toda.
Vivemos década após década, século após séculos, escondidos, nas suas instituições, em suas igrejas, em seus lares, passamos despercebidos, nos refugiamos em diversos lugares, na cobertura de edifício ou no porão de um casa abadonada, vagamos pelas madrugadas atrás da próxima vida que será tomada pra que possamos continuar vivendo. Não querida, somos piores do que demônios, nem se quer fomos anjos! Nos infiltramos em cada esfera de poder humano, estamos direcionando vocês conforme nossa vontade, agora você faz parte desse clube seleto e por mais que outros membros digam que isso não é verdade, é o que fazemos de melhor, nós somos monstros fingido ser humanos fingindo sermos monstros... isso é tão complexo não acha?
Eu só sei que eu dormir novamente, dessa vez eu não tive sonhos, tive uma espécie de delírio, sentia algo quente e suculento descendo por minha garganta, nesse delírio eu bebia sangue do braço de Marcos, eu sugava como se fosse uma fruta recém colhida, tentando não desperdiçar nenhuma gota. Esse sonho se repetiu por pelo menos três noites.
Depois de uma semana, naquele lugar, com as conversas que estávamos tendo, ele falando sobre famílias, linhagens, dons, tanta coisa, tanta coisa que eu não queria saber, eu apenas continuava deitada, como se estivesse para morrer, melancólica, não via sentido em nada daquilo, mas escutava tudo com calma, processando tudo aos poucos.
Ele continuou falar, chegou a falar algo sobre Caim e Abel, sobre o Dilúvio, sobre a idade media, coisas que não batiam com o que eu havia aprendido de história na colônia onde cresci em Jerusalém. Eu me sentia impotente diante de tudo aquilo de toda essa história.
Passou-se cerca de duas semanas, ou mais quem sabe, uma noite acordei e ele não estava lá.
As velas acesas, eu com a mesma roupa, notei que não transpirava, notei que os dias estavam mais frios, aos poucos descobrir que não podia mais ver a luz do sol, que isso era nocivo, ele não me disse, foi algo que captei no ar, uma sensação, mas isso não era um problema eu se quer conseguia ficar acordada, os dias se tornaram noites eternas. Em um quarto empoeirado, finalmente ele não estava ali, com suas explicações que eu não queria, com sua gargalhada que feria minha cabeça, com esse ódio e amor que passei a sentir dele. Maldito!
Levantei lentamente, ainda me sentia letárgica, mas mesmo assim precisava tentar achar uma saída, de fato era um porão improvisado, que virou um quarto, eu caminhei por entre cômodas velhas caindo aos pedaços. Fui na direção da porta e não estava trancada, o que me pareceu muito estranho. Imaginei que como na primeira noite, ele iria aparecer e sussurrar no meu ouvido para dormir novamente.
Eu abri a porta, uma escada velha dava para um próximo andar, fui subindo, o ranger das escadas pareciam mais motores de Ford roncando, eu tentando ser silenciosa, mas eu não estavam bem, era como se não fosse eu, mas era eu.
Subi as escadas, a escuridão era total, me deparei com um salão antigo, amplo. Um chão quadriculado, de um lugar que algum dia poderia ter sido um bordel nos anos 30, bem antes deu nascer, mesas e cadeiras velhas cercavam um pequeno palco improvisado e no fundo um bar, ou somente as prateleiras do que um dia foi um bar.
As coisas novas eram madeiras que estavam na janela, era muito mais novas, estavam pregadas e pareciam bem firmes, notei nesse momento o quanto meu olhar estava aguçado, porque consigo ver tudo isso com um pouco de luz que entrava por um buraco no teto, uma luz da lua, não a luz do dia. Podia sentir inclusive a brisa do outono que soprava do lado de fora, podia sentir finalmente um perfume barato, provavelmente masculino, que deixou um rastro.
Era um perfume que sentia todas as noites, mas pensava esta alucinando, pensei nas primeiras noites que era o perfume de Marcos, mas o cheiro era diferente, alguém era cúmplice no meu cativeiro, alguém que trocava e acendia as velas. Esse alguém tinha a saída do meu cativeiro.
Eu fui seguindo aquele perfume leve, como um caçador segue uma presa, eu achei algo que devia ser secreto, um alçapão. Eu abaixei para pegar um pedaço de pau, aquilo que um dia foi um pé de cadeira, senti a consistência para saber de garantiria pelo menos um ataque bem sucedido, a madeira parecia boa.
Abri o alçapão e desci por ele, era um túnel, pouco maior que, com meus 1,65 de altura, alguém mais alto teria que se curvar para andar, segui pelo túnel, não conseguia enxergar nada, mas sentia o cheiro do perfume barato, que passou diversas vezes por aquele lugar, apenas continuei seguindo, seguindo, por vários metros. Até que avistei como se fosse dia luz do luar mais a frente e a brisa de outono que atravessava por uma saída.
Corri, corri mais rápido que pude, para dar de encontro com uma grade de ferro reforçada, com barras de mais de uma polegada, com um cadeado tão grande quanto, aquela era a saída sem dúvida, mas eu precisaria de um plano bem elaborado para poder saí daquele lugar.
Mas eu sempre fui uma menina paciente, eu só precisava sobreviver, um pouco mais, apenas um pouco mais...
Nenhum comentário:
Postar um comentário