I
Não vou mentir, eu sou uma vampira, sou desde o final dos anos 60, quando fui abraçada na porra de uma cidade no meio oeste dos Estados Unidos, eu jamais quis isso. Eu nasci em 1945, e tive uma vida... como posso dizer... pouco convencional, mas minha vida por enquanto não é tão importante quanto o que aconteceu e não vou começar com: eu cresci, eu vive... blá blá blá. Mas vocês que estão lendo precisam saber que sou uma maldita fudida, boa de porrada e extremamente treinada na arte de matar como primor.... isso antes de eu me tornar uma vampira, depois a coisa foi só piorando.
Em Setembro de 1966 eu estava na merda, eu estava muito na merda, quando se é uma guerreira como eu, a morte sempre parece espreitar em cada esquina e em cada porra de arvore, de dia ou de noite, depois de um tempo toda aquela coisa de causa serve para manter um pouco de sanidade, uma sanidade que vai se deteriorando aos poucos, todo militante sabe como é isso, há dias ruins e dias piores.
Lá estava eu, na Nicarágua junto com forças revolucionárias, com alguns companheiros cubanos e ex-combatentes da revolução espanhola, articulávamos um levante contra um ditador, que hoje nem me lembro o nome. Mas era um escroto apoiado pelo tio Sam, que merda eu odiava tanto os Estados Unidos que se me dessem um rifle eu acabaria com o presidente num psicar de olhos, quem nunca quis matar uns malditos políticos almofadinhas que roubam o dinheiro do povo, exploram nossas terras e continuam impunes? Vai me dizer que vocês nunca quiserem isso? Uma ova, no fundo todo mundo tem uma gota ou duas de revolta, eu tinha um poço e sabia bem como direcionar.
Tava tudo perfeito, íamos tomar uma base militar estratégica, outros grupos revolucionários já estavam indo em outro direção para garantir a proteção de algumas aldeias, tava tudo nos conformes, mas a verdade que alguém caguetou o plano, eu estava na ala sul com outros três companheiros, eu liderando, quando fomos cercados por forças militares, eram mais que companheiros, eram família, os militares não contaram conversa, meteram bala em todo mundo.
Eu vi sangue, para todo lado, eu saquei uma granada, nessa hora um tiro atravessou meu ombro, joguei ela entre o grupo de militares e a gente, um dos meus já tinha caído. Os estilhaços de fragmentação acertaram todo mundo, eu estava coberta, eu vi a mandíbula de um amigo sendo atravessa por pedacinho de fogo, em uma mistura de dor e em um cena infernal ele deu adeus a esse mundo.
Eu segui, atirando contra os militares torcendo para que os desgraçados não me flaqueassem até eu chegar na rota de fuga, minha própria rota de fuga, João entrou na minha frente e levou um tiro por mim, ainda lembro do sangue respingando no meu rosto... que merda até hoje eu sonho com esse sangue no meu rosto... tem dias que fico lavando o rosto na esperança que suma de vez....
Eu consegui fugir, consegui sai do país e fui para o México... Meu corpo porque meu espírito ficou quebrantado... os meses seguintes foram... difíceis de descrever... lembro da rua... lembro de catar comida... de correr da policia... de matar policiais... Não lembro como cheguei na porra daquela cidade onde eu iria morrer.
Era uma cidade pequena, acho que cheguei de trem por lá, estava. Naquela época você via diversos outsiders andando de um lugar para o outro, enquanto a porra dos hippies curtiam a liberdade e a era de aquária, tinha muita gente ferrada por causa das guerras. A guerra nunca muda, mas as pessoas.
Eu lembro que cheguei pelos trilhos do trem, junto com um grupo de moradores de rua, os caras eram legais, mas devo dizer que não lembro muito dessa época, deve ter sido o trauma, deve ter sido o monte de merda que fica zumbindo na minha cabeça. Só sei que cheguei em um dos distritos dessa cidade e fiquei um tempo em beco, pegava comida do lixo mesmo. Uma noite a porra de um homem veio para cima de mim, eu já tinha lidado com tipos desses antes... muito antes do feminismo radical falar sobre autodefesa, eu já sabia me defender muito bem.
Em principio, a mesma coisa, o mesmo papo, esperou eu ficar sozinha, eu tinha avistado o fudido a duas quadras me seguindo, deixei ele morder a isca, ele veio pra cima. Foi tudo bem rápido, um piscar de olhos, ele me agarrou, os braços deles eram um pouco mais fortes do que eu tinha calculado e extremamente frio, eu deixei-me levar e com a força dele aproveitei para dar uma cabeçada no nariz do patife. Eu senti quebrar o nariz, mas ele não me soltou, o que era estranho, esses fudidos covardes choram feito crianças ao primeiro sinal de reação.
Mas a cabeçada era só uma distração, para que ele não percebesse eu pegar a faca, mas ao invés de me soltar, ele me mordeu, hoje entendo muito bem, mas na época eu imaginei que fosse um doido desgraçado, ele me mordeu e em segundos me senti fraca, por um momento eu senti vontade de me entregar aquele abraço, mas que mera eu não ia fazer isso.
Eu girei meus calcanhares, girei o quadril, coloquei a perna por trás dele tão rápido que ele nem sentiu, ele desequilibrou como o previsto e caiu, mas mesmo assim ele não me soltou, percebi por um segundo que ele estava sugando meu sangue... o que quer que fosse aquilo eu iria morrer, mas assim como ele me levou para o chão eu ia levar ele comigo para o inferno.
No chão, ele me apertava mais ainda, aproveitei para esfaquear a coxa dele, tão fundo e no ponto certo para acertar a sua artéria, quando senti a faca atravessar e chegar no ponto certo, girei o cabo, seria uma perna a menos com que me preocupar, dessa fez ele afrouxou o aperto e largou meu pescoço, girei tão rápido quanto podia para o lado, desferindo uma outra facada, dessa vez abaixo do braço esquerdo,havia sangue para todos os lados, eu estava sangrando... ele estava sangrando.
Ele tentou segurar um dos meus braços, que tolinho! Eu finquei a minha faca no antebraço dele e joguei meu corpo para trás, a tração arrancou músculos, pele e mais sangue, dessa vez ele gritou. Normalmente em uma luta com facas o primeiro golpe já teria sido o suficiente, mas o que estava na minha frente era um animal, um bastardo, quando ele gritou eu vi suas presas. Era um vampiro, hoje eu sei, na época eu pensei que era loucura.
Eu joguei meu corpo pra trás e rolei de costas, levantando, mas o sangue escorria tanto que já me sentia tonta, sabia que meu próximo golpe seria o último, já estava me dando por vencida, eu então saltei em cima dele, dando uma chave de pernas, prendendo o outro braço e o pescoço juntos, usei a faca como apoio para puxar o mais forte possível, cravei na garganta dele e apertei a chave de pernas com o resto de força que tinha, eu senti o pescoço dele quebrar. E o sangue escorrer, mesmo assim ele ainda estava vivo, mas já não era mais ele, era uma besta, olhos vermelhos, ensaguentado, desferir outra facada no mesmo lugar, como mais força, isso fez sua cabeça pender como se fosse um saco, depois outra faca para separar as vértebras, a faca quebrou no osso do desgraçado e minhas mãos se cortara, mas sabia que não podia parar.
Eu usei minhas mãos para puxar a cabeça dele do corpo, a pele rasgava, mas não é uma coisa fácil de se fazer, a nossa pele não rasga tão fácil assim, meti meus dedos nos olhos desse desgraçado e fui puxando como se não houvesse amanhã, e não havia, só percebi que ele não se mexia, depois dar uma outra cabeçada na cabeça desesperada.
Nessa hora eu chorava em desespero, estava deitada numa poça de sangue, sentindo aos poucos minhas pulsações aceleradas bombeando mais sangue para fora do meu corpo, estava com minhas mãos na ferida que o desgraçado tinha feito.
Eu olhava o céu, não havia estrelas, eu escutava barulhos vindo de fora do beco, aos poucos em sentia muito frio... nas minhas pernas... no meu corpo... era o fim. Eu aos poucos fui me acalmando.
Era aquele meu fim, morta sabe lá porque em um beco em uma cidade que nem lembrava o nome, morta por uma coisa que nem sabia o que era, anos de treinamento miliar, anos na selva, escapando de balas, bombas e minas, para morrer numa cidade para uma coisa como aquela, eu respirava fundo tentando me consolar.
No final a morte não é legal, eu nunca quis morrer, apesar e saber que um dia isso iria me acontecer, mas a gente sempre nos vê velho, mas aquilo, meu deus. Aquilo era surreal, eu lembro de ter sorrido que merda aquela coisa também nem imaginaria que eu iria reagir daquele jeito, eu gargalhei de nervosa. Eu ia morrer naquele beco, caminhei tanto para morre ali
Então tudo foi ficando escuro, não teve nenhum túnel de luz, não teve ninguém que eu conhecia me dizendo: – vá para a luz, vá para luz!
Eu apenas parei de respirar em algum momento e minha consciência desapareceu.
Eu acordei, porra o pior de tudo isso é que depois que eu aceitei que ia morrer, eu acordei de novo, mas não estava no beco, estava em uma cama, estava tudo escuro e velas cercavam uma cama de casal surrada, um cheiro de poeira no ar, eu estava com outra roupa, um vestido velho, que cheirava a merda, eu estava ali em uma casa abandonada, sem nada por baixo, com um vestido de uma velha morta.
Eu nunca fui uma donzela, eu acordei puta da vida, achando que era o inferno e eu ia sentar a mão no capeta. Quando uma voz vinda de um canto, como se estivesse sempre ali desde que abri meus olhos, nos poucos segundos que retomei a minha consciência.
- Eu não sou o capeta Valentine, eu me chamo Marcos! E vamos ter uma conversa!
A única coisa que eu pensei foi, puta que o pariu filha de uma puta!
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