sábado, 3 de junho de 2017

Contos Sangrentos do Sabá - Valentine - III

III
57.... 58.... 59...
Eu ouvia nitidamente e constantemente aquelas gotas do outro lado do salão, no andar de cima, eram como ponteiros de um relógio, no entanto, menos precisas, eram gotas de algum cano velho que os anos fizeram com que se infiltram-se no teto e caiam constantemente me ajudando a focar meus sentidos. As noite se passaram sem que aquela figura retornasse para me atormentar, mas a visita daquele que usava uma loção pós barba fedorenta era constante.

Todas as noites ele vinha deixar garrafas e o odor daquele loção pós-barba barata, aquele odor me fazia lembrar a minha infância nas colônias em Jerusalém, principalmente um senhor que tinha sobrevivido ao holocausto, um dos poucos que conheci. Lembro que falavam pouco sobre isso, como algo que necessitava ser lembrado e ao mesmo tempo esquecido. Naqueles dias que passei ali, não sei porquê, mas me faziam lembra da minha infância na colônia, acho que porque me sentia muito como uma criança, aquele sentimento não me fazia bem, mas por diversas noites não tinha sido capaz de mudar isso.

Eu precisava me concentrar, aguçar minha nova visão, audição, olfato, precisava saber os limites, então aquelas gotas, vinha bem a calhar, eu podia sentir o lugar ao meu redor, os batimentos cardíacos de animais pequenos, como ratos, serpentes, sapos comendo mosquitos. Principalmente aprendi a sentir a chegada desse homem que me deixava essas garrafas.

Nas primeiras noites mentia para mim mesmo, como que se me entregasse totalmente a um sonho distante na minha mente, aos poucos eu tive aceitar, pois algo dentro de mim, mais forte do que qualquer impulso que senti antes daquelas noites, me falava a verdade sobre o líquido viscoso dentro daquelas garrafas, eu me perguntava como seria quando eu mesmo precisasse pegar direto da fonte.  O liquido era frio, como a morte, algumas vezes diferente podia sentir as pequenas diferenças com meus sentidos novos, as vezes conseguia até imaginar de onde vinha aquele líquido. Esses devaneios eu tinha que conter, porque sabia que significaria parte do que restou da minha humanidade, naqueles dias mal sabia eu que aquilo que chamava-se humanidade era apenas uma atuação que ficou de uma vida passada, mas não irei adiantar, nada, pois a única coisa que conseguida pensar era que precisava a todo custo acordar mais cedo, eu precisava está ativa quando aquele homem viesse deixar minhas garrafas.

Mas isso não era mais tão simples,era muito difícil, tão difícil quanto acordar cedo depois de dias trabalhando sem parar, dormindo tarde, era pior, como se eu estivesse em uma espécie de coma induzido, meu corpo ficava muito pesado. Todas as vezes que consegui acordar um pouco mais cedo o máximo que conseguia era abrir minhas pálpebras para olhar ao meu redor, podia sentir a mudança de temperatura quando a noite se aproximava, nossa eu sentia a umidade do ar mudando enquanto o sol ia se pondo, apesar da escuridão naquele lugar ser constante, sabia que existia diferenças gritantes entre a escuridão do dia e da noite, algo que não conseguia perceber enquanto era humana, enquanto era viva, mas agora eu podia não apenas perceber com meu corpo, eu podia pressentir, muitas vezes estava certa sobre meus pressentimentos.

Eu precisava de uma chance, eu precisava lutar, eu precisava matar... não apenas por um impulso dentro de mim, mas para por em prática meu plano de fuga, pelo menos eu repetia isso para mim mesma constantemente. E a medida que os dias seguiam, eu sentia-me mais forte. Eu podia sentir uma força interna.

Eu não comia, só sentia sede, a única coisa que tinha para beber eram aquelas garrafas que eram deixadas pelo cúmplice do meu algoz, eu precisava jogar com as novas regras do jogo. Mas como eu disse, era saboroso, mesmo que gelado. Eu lembro que criei uma rotina para os dias bons, eu me levantava e caminhava pela minha prisão sempre que tinha certeza de está sozinha. Eu procurava detalhes que antes não poderia enxergar, nossa era como se pudesse ver todas as tonalidades da escuridão, com todas minúsculas diferenças, estava aprendendo a me acostumar como meus novos sentidos.

Bem, havia dias ruins, dias que não conseguia me levantar, dias em que a luta era comigo mesmo naquele porão escuro, nesses dias nem se quer mexia nas garrafas deixadas pelo cúmplice, eu abria e fechava os olhos me sentido frágil, desolada e sem sentido de continuar vivendo. Eu entendi que aquele monstro que me mantinha em cativeiro tinha feito algo comigo, mexido profundamente como minha mente. Nos dias piores eu podia quase alucinar, com coisas, como se pudesse ver e ouvir coisas que não estavam lá, minhas alucinações envolviam mulheres e homens dos anos 30, podia ver eles caminhando entre os salões, enquanto eu estava amarrada psicologicamente aquele leito velho e quebrado.

Nos dias piores dormia mais que um dia, acordando como uma sonâmbula para beber um pouco do liquido da garrafa, eu achava que estava passando por um esgotamento físico, por não comer como deveria, por está me alimentado por líquidos apenas. Mas não quero levar vocês para esse buraco de merda que é minha maldição, mais tarde eu descobriria que o dom das trevas é diferente para cada um mesmo, inclusive as maldições do sangue.

Eu continuava focada em fugir, um dia eu consegui acordar mais cedo do que de costume, bem mais cedo, lembro que na noite passada a isso, eu fui deitar com esse pensamento fixo, lembro que cheguei a sonhar com o túnel por onde o cúmplice entrava e saía, ouvir seus passos se aproximando.

Eu acordei de sopetão, sabia que era mais cedo, porque sentia o calor atravessando a madeira velha e o ar da noite ainda não se apresentava, era perto do por do sol, eu precisava estar pronta, eu sai do porão, nunca tinha saído naquele horário. Quando abrir a porta vi a iluminação do dia atravessando o salão, mesmo na penumbra onde me encontrava, meu corpo estremeceu.

Por deus aquilo iria queimar meus olhos, eu fiquei em pânico, toda a minha vontade anterior, todo o meu plano foi por água a baixo, como meu corpo não fosse meu fui me inclinando e comecei a chorar, soluçando, aquela luz parecia que iria me tocar a qualquer momento, o cheiro do calor também. Eu fiquei tonta e cai para trás, entrando novamente no meu quarto. 

Minha boca estava seca, eu fui correndo na direção do canto mais escuro do quarto, onde me encolhi, fiquei imóvel e paralisada olhando para a porta. Entre meu desespero não consegui distinguir os passos que vinham pelo corredor, aos poucos fui me controlando, lembrando dos meus objetivos. Instintivamente pensei em correr para a cama e fingir sono, mas os passos estavam perto demais, não haveria tempo.

E não houve, a porta de abriu e pude ver o cúmplice com aquela maldita loção pós-barba, ele era branco, mais alto que eu, tinha um corpo grande e constituição forte, mas vestia roupas que pareciam de um enfermeiro ou um maqueiro de hospital, ele olhou para a cama e ficou estarrecido de não está ali.

 - Puta que paril, cadê ela?

Eu estava no canto escuro do porão, parada e olhando a cena, imóvel. Ele olhou a cama, olhou ao redor em uma atitude simples, que poderia me ver facilmente, mas seus olhos passaram por onde eu estava, como se estivesse ludibriado pelos seus próprios sentidos, ele não me viu .

- Não, não, não.... ele vai me matar!! Eu fiz tudo certo.... não deixei o portão aberto!!

Ele correu para olhar em baixo da cama, enquanto eu observava o pobre diabo desesperado, eu vi a oportunidade certa, ele daria trabalho pelo tamanho, mas se fosse rápida suficiente poderia com um golpe acabar com tudo. Eu sabia o que fazer e fiz.

Eu corri e saltei para chutar com a força do meu peso a costa dele, eu bati com tanta força que pude sentir as articulações da vértebra estalando, ele gritando desesperadamente, rapidamente lancei meus braços em um mata-leão, apertei minhas pernas contra sua cintura e inclinei meu peso para frente. No exato momento em que tentava puxar o ar com o grito de dor, ele engasgou, tentou uma reação em vão, suas mãos não acharam nada, o mata-leão estava bem encaixado, se fosse um lutador daria mais trabalho, mas não houve contra ataque, ele ainda tentou se levantar, mas foi em vão, aos poucos senti seus músculos enfraquecendo, ele desfaleceu, se apertasse um pouco mais poderia quebrar a traqueia, mas eu tinha planos para ele.

Tudo foi tão rápido, que não consegui pensar direito, primeiro aquele desespero fora do normal com a luz do dia, depois o porque dele não consegui me enxergar eu estando praticamente em sua frente e ainda o que diabos eles queriam comigo. Arrastei o cúmplice de volta para a cama, peguei alguns lençóis e rasquei, fazendo uma corda improvisada, era uma precaução mais psicológica que de fato um meio, depois fui investigar o que ele tinha, uma carteira, um 38, abri o tambor, tinha quatro balas, eu não precisaria de tantas. Eu fui ver a carteira, um nome e um endereço, Andrew, enfermeiro do sanatório local de Rotton City.

 Eu sentei ao lado dele na cama, enfiei o revolver na boca dele tão fundo até ele engasgar e acordar, o filha da puta pensou que eu ia tirar né, mas deixei dentro da boca dele, enquanto engasgava, com os olhos vermelhos, tentando respirar.

- Boa noite Andrew, acho que você me deve algumas explicações! Mas primeiro, e mais importante, quem é o Marcos e porque estão me deixando aqui? – ao perceber que ele iria cooperar, fui tirando o 38 da sua boca, mas ainda apontando para sua cara, ele estava cagado de medo, e eu iria fazer com que continuasse daquele jeito.

- Ele é o dono do sanatório da cidade! Ele é um senhor da noite, como você, senhora! Ele é um filho de malkav como a senhora! Eu sou apenas um servo, por favor não me mate!

- Que merda é essa que você esta falando Andrew? Que porra é essa de senhor da noite seu fudido....
Eu puxei o cão do revolver, o barulho fez ele arregalar os olhos ainda mais, eu podia ouvir o batimento cardíaco dele como um barulho de ventilador em quarto, a gente sabe que está ali, mas não é algo que incomode muito.

- Senhora... senhora... eu juro, eu estou aqui para cuidar da senhora, até que se recupere... senhor Marcos me deixou responsável... por favor senhora!

Que merda era aquilo tudo, que porra, era essa, eu fiquei pensando por um momento ou dois, enquanto meus dedos instintivamente deslizavam pelo gatilho, o cheiro de pólvora, o suor que escorria pela face dele, em meio a tanta coisa eu percebi algo que era obvio, mas tão ofuscado de minha mente, em meio aquilo tudo, aquele esforço que fiz para me mover mais cedo, em meio a toda aquela adrenalina, eu percebi como uma pedrada na minha cabeça, que diferente de Andrew.


- Eu não estou respirado!?

sábado, 15 de abril de 2017

Contos Sangrentos do Sabá: Valentine - Cap II

II
Havia uma penumbra entre a gente, a escuridão cobria metade do rosto de Marcos, seu cabelos crespos caídos até os ombros me lembravam aquelas fotos de anjos que vi na infância em Jerusalém, seus olhos tinham um tom acinzentados, que me deixava muito desconfortável. Eu estava naquela cama, sem minha faca. Não havia janelas, provavelmente um porão ou um soltão, o cheiro de poeira era muito forte, estranhamente eu conseguia ouvir os carros que passavam em alta velocidade em uma rodovia mais ao norte.

Eu não sabia do que se tratava na época, mas um complexo de sensações me invadiu.

Me chamo Marcos, essa é minha casa, devo lhe dá os parabéns, é muito difícil matar alguém da minha espécie – sua voz parecia tão nítida que nem parecia está do outro lado daquele quarto, parecia que estava falando ao meu lado, o mais estranho que estava tendo a sensação que ele estava apenas sussurrando – Muito bem Valentine, eu não sou o capeta, eu sou o que na literatura vocês chamam de vampiro, da mesma espécie daquele que você trucidou no beco, mas de famílias diferentes.

Eu estava calada, eu apenas estava prestando atenção, o movimento das chamas das velas me deixava muito distraída, extremamente distraída, isso era muito irritante.

Eu quero que saiba que o dom da morte é diferente para cada um de nós, mas temos dons em comum por sermos da mesma família, isso você aprenderá em breve, para mim foi muito difícil mesmo decidir se deveria lhe salvar, pois isso seria um problema. Mas acontece que aquele bastardo invadiu meu território, eu tinha uma dívida com você princesa, então...

Não me chame de princesa! – eu o interrompi, menos conscientemente do que imaginava, algo me empurrava, como uma coceira na nuca, eu deveria pular nele e matar agora aquele desgraçado maluco e segui meu caminho o mais rápido possível daquele lugar.

Perdão, eu não queria causar um desconforto, acontece que você morreu, sem sombra de dúvidas, você morreu mesmo! Nossa, como ia dizendo, poucos humanos poderiam matar alguém da minha espécie, achei que alguém tão especial como você merecia viver um pouco mais. Por isso eu lhe transformei.

Como é que é?! Que papo escroto é esse bixo? Me transformou no quer seu fudido?

Não use essas palavras de baixo calão comigo jovem. Se não terei que lhe por em seu devido lugar!

Naquele momento eu não aguentei, pulei da cama na direção dele, ele sumiu no mesmo momento, como se não estivesse ali, eu o procurava, pela quarto, quando senti atrás de mim um sussuro.

Durma!

Não era apenas palavras, era uma força maior sobre mim, eu apenas cochilei e novamente perdi a consciência. Eu lembro de sonhar com a Nicarágua novamente, lembro de uma noite de céu limpo, estávamos em uma clareira conversando sobre a revolução cubana

Estava eu  e João 

Valentine, o que eles fizeram em cuba é que devemos fazer na América Latina, devemos instruir o povo, pegar nas armas e expropriar os latifundiários da Nicarágua.

João eu sei bem disso, mas a instrução precisa ser emancipatória, não podemos seguir a cartilha da União Sovietica sem questionar.

Companheira, mas lá deu certo, vai dar certo aqui também. Em cuba o programa educacional já ta dando frutos.

É mas e as artes, os estudos da literatura... e...

Qual é Valentine, vamos criar nossa própria literatura, o resto é material de propaganda capitalista, aqueles romances burgueses só aprisionam nossas mentes.

Porra João não me interrompe, que caralho, mania de vocês de interromper as mulheres porra!

Estávamos debatendo educação popular, programa revolucionários, experiências, não sei se foi uma lembrança ou um sonho, não faço ideia ao certo, só sei que eu podia quase sentir a leve brisa, minha farda molhada pela umidade da floresta, o cheiro da comida que estávamos fazendo na fogueira. Eu lembrava do rosto do João antes da morte dele, era um rosto brilhante, ele tinha forte traços indígenas, vinha de uma família de campesinos do sul do México, ele era um ótimo atirador, lembro que trocamos muitas técnicas, eu podia passar a noite inteira conversando com ele sobre socialismo, capitalismo, sobre política. Nossa eu nunca mais sonhei com aquele momento de novo, nunca mais eu sonharia, só teria a lembrança desse sonho confundida com minhas próprias lembranças do João sendo atravessado por um tiro de fuzil.

Eu acordei de novo, não sei quando tempo havia passado, ou quantos dias tinha passado, eu tinha uma sensação estranha, a raiva que tinha dele havia passado, era como se fosse outra pessoa.

Valentine, deixe-me continuar, você precisa entender que, você morreu e que mesmo assim continua viva! Você recebeu o dom da noite, ou o dom das trevas.

Eu apenas encostei minha cabeça em um travesseiro amassado e sujo, fedendo a um alvejando antigo, nossa podia sentir o odor do ultimo ser humano que usou aquilo, e algo me dizia que fazia tempo, muito tempo.

Não vou lhe dizer sobre os primeiros da nossa espécie, nem nada disso, isso se quiser mais tarde vai descobrir sozinha ou com minha ajuda, ou nunca vai descobrir. Mas saiba que somos uma sociedade, uma sociedade que esconde-se da vista os humanos, por motivos óbvios. Você não conversa com a vaca ou a galinha antes da refeição não é? E não se engane o que resta de humano em você deve durar no máximo uns cinquenta anos, depois disso, acredite é só ladeira abaixo.

Eu sei que você não está entendendo, mas isso faz parte do dom, você se tornou parcialmente imortal, a não ser que alguém no beco arranque sua cabeça! – ele gargalhou nesse momento – Desculpe minha empolgação, mas é hilário, de fato é hilário!

Ele começou a rir descontroladamente, sem parar, no inicio era como se estivesse apenas debochando, depois o riso foi ficando cada vez mais tenebroso, aquilo me assustou muito, mas mesmo assim eu estava quase como se tivesse sido dopada, pensei que ele havia injetado algo em mim, na verdade ele estava dominando minha mente aos poucos.

Nossa como isso foi engraçado não é? Então em nossa sociedade, um clube seleto de mortos vivos seculares que ficam se matando por território, prestigio e as vezes por motivos até um pouco mais nobres. Agora você faz parte dessa camarilha, dessa corja de monstros. Mas acredite, somos civilizados, há piores!

Eu ainda podia sentir a raiva dentro de mim, querendo acabar com aquilo, sentar a porrada na cara de almofadinha desse Marcos, mas eu não conseguia, estava subjugada por algo que só entenderia anos depois.

Naquele momento eu só precisava sobreviver, um pouco mais. Precisava me libertar daquele loucura toda... Na verdade o que eu não sabia é que eu precisava me entregar aquela loucura toda.

Vivemos década após década, século após séculos, escondidos, nas suas instituições, em suas igrejas, em seus lares, passamos despercebidos, nos refugiamos em diversos lugares, na cobertura de edifício ou no porão de um casa abadonada, vagamos pelas madrugadas atrás da próxima vida que será tomada pra que possamos continuar vivendo. Não querida, somos piores do que demônios, nem se quer fomos anjos! Nos infiltramos em cada esfera de poder humano, estamos direcionando vocês conforme nossa vontade, agora você faz parte desse clube seleto e por mais que outros membros digam que isso não é verdade, é o que fazemos de melhor, nós somos monstros fingido ser humanos fingindo sermos monstros... isso é tão complexo não acha?

Eu só sei que eu dormir novamente, dessa vez eu não tive sonhos, tive uma espécie de delírio, sentia algo quente e suculento descendo por minha garganta, nesse delírio eu bebia sangue do braço de Marcos, eu sugava como se fosse uma fruta recém colhida, tentando não desperdiçar nenhuma gota. Esse sonho se repetiu por pelo menos três noites.

Depois de uma semana, naquele lugar, com as conversas que estávamos tendo, ele falando sobre famílias, linhagens, dons, tanta coisa, tanta coisa que eu não queria saber, eu apenas continuava deitada, como se estivesse para morrer, melancólica, não via sentido em nada daquilo, mas escutava tudo com calma, processando tudo aos poucos.

Ele continuou falar, chegou a falar algo sobre Caim e Abel, sobre o Dilúvio, sobre a idade media, coisas que não batiam com o que eu havia aprendido de história na colônia onde cresci em Jerusalém. Eu me sentia impotente diante de tudo aquilo de toda essa história.

Passou-se cerca de duas semanas, ou mais quem sabe, uma noite acordei e ele não estava lá. 

As velas acesas, eu com a mesma roupa, notei que não transpirava, notei que os dias estavam mais frios, aos poucos descobrir que não podia mais ver a luz do sol, que isso era nocivo, ele não me disse, foi algo que captei no ar, uma sensação, mas isso não era um problema eu se quer conseguia ficar acordada, os dias se tornaram noites eternas. Em um quarto empoeirado, finalmente ele não estava ali, com suas explicações que eu não queria, com sua gargalhada que feria minha cabeça, com esse ódio e amor que passei a sentir dele. Maldito!

Levantei lentamente, ainda me sentia letárgica, mas mesmo assim precisava tentar achar uma saída, de fato era um porão improvisado, que virou um quarto, eu caminhei por entre cômodas velhas caindo aos pedaços. Fui na direção da porta e não estava trancada, o que me pareceu muito estranho. Imaginei que como na primeira noite, ele iria aparecer e sussurrar no meu ouvido para dormir novamente.

Eu abri a porta, uma escada velha dava para um próximo andar, fui subindo, o ranger das escadas pareciam mais motores de Ford roncando, eu tentando ser silenciosa, mas eu não estavam bem, era como se não fosse eu, mas era eu.
Subi as escadas, a escuridão era total, me deparei com um salão antigo, amplo. Um chão quadriculado, de um lugar que algum dia poderia ter sido um  bordel nos anos 30, bem antes deu nascer, mesas e cadeiras velhas cercavam um pequeno palco improvisado e no fundo um bar, ou somente as prateleiras do que um dia foi um bar.

As coisas novas eram madeiras que estavam na janela, era muito mais novas, estavam pregadas e pareciam bem firmes, notei nesse momento o quanto meu olhar estava aguçado, porque consigo ver tudo isso com um pouco de luz que entrava por um buraco no teto, uma luz da lua, não a luz do dia. Podia sentir inclusive a brisa do outono que soprava do lado de fora, podia sentir finalmente um perfume barato, provavelmente masculino, que  deixou um rastro.

Era um perfume que sentia todas as noites, mas pensava esta alucinando, pensei nas primeiras noites que era o perfume de Marcos, mas o cheiro era diferente, alguém era cúmplice no meu cativeiro, alguém que trocava e acendia as velas. Esse alguém tinha a saída do meu cativeiro.

Eu fui seguindo aquele perfume leve, como um caçador segue uma presa, eu achei algo que devia ser secreto, um alçapão. Eu abaixei para pegar um pedaço de pau, aquilo que um dia foi um pé de cadeira, senti a consistência para saber de garantiria pelo menos um ataque bem sucedido, a madeira parecia boa.

Abri o alçapão e desci por ele, era um túnel, pouco maior que, com meus 1,65 de altura, alguém mais alto teria que se curvar para andar, segui pelo túnel, não conseguia enxergar nada, mas sentia o cheiro do perfume barato, que passou diversas vezes por aquele lugar, apenas continuei seguindo, seguindo, por vários metros. Até que avistei como se fosse dia luz do luar mais a frente e a brisa de outono que atravessava por uma saída.

Corri, corri mais rápido que pude, para dar de encontro com uma grade de ferro reforçada, com barras de mais de uma polegada, com um cadeado tão grande quanto, aquela era a saída sem dúvida, mas eu precisaria de um plano bem elaborado para poder saí daquele lugar.

Mas eu sempre fui uma menina paciente, eu só precisava sobreviver, um pouco mais, apenas um pouco mais...

Contos Sangrentos do Sabá - Valentine - Cap 1

I
Não vou mentir, eu sou uma vampira, sou desde o final dos anos 60, quando fui abraçada na porra de uma cidade no meio oeste dos Estados Unidos, eu jamais quis isso. Eu nasci em 1945, e tive uma vida... como posso dizer... pouco convencional, mas minha vida por enquanto não é tão importante quanto o que aconteceu e não vou começar com: eu cresci, eu vive... blá blá blá. Mas vocês que estão lendo precisam saber que sou uma maldita fudida, boa de porrada e extremamente treinada na arte de matar como primor.... isso antes de eu me tornar uma vampira, depois a coisa foi só piorando.

Em Setembro de 1966 eu estava na merda, eu estava muito na merda, quando se é uma guerreira como eu, a morte sempre parece espreitar em cada esquina e em cada porra de arvore, de dia ou de noite, depois de um tempo toda aquela coisa de causa serve para manter um pouco de sanidade, uma sanidade que vai se deteriorando aos poucos, todo militante sabe como  é isso, há dias ruins e dias piores.

Lá estava eu, na Nicarágua junto com forças revolucionárias, com alguns companheiros cubanos e ex-combatentes da revolução espanhola, articulávamos um levante contra um ditador, que hoje nem me lembro o nome. Mas era um escroto apoiado pelo tio Sam, que merda eu odiava tanto os Estados Unidos que se me dessem um rifle eu acabaria com o presidente num psicar de olhos, quem nunca quis matar uns malditos políticos almofadinhas que roubam o dinheiro do povo, exploram nossas terras e continuam impunes? Vai me dizer que vocês nunca quiserem isso? Uma ova, no fundo todo mundo tem uma gota ou duas de revolta, eu tinha um poço e sabia bem como direcionar.

Tava tudo perfeito, íamos tomar uma base militar estratégica, outros grupos revolucionários já estavam indo em outro direção para garantir a proteção de algumas aldeias, tava tudo nos conformes, mas a verdade que alguém caguetou o plano, eu estava na ala sul com outros três companheiros, eu liderando, quando fomos cercados por forças militares, eram mais que companheiros, eram família, os militares não contaram conversa, meteram bala em todo mundo. 

Eu vi sangue, para todo lado, eu saquei uma granada, nessa hora um tiro atravessou meu ombro, joguei ela entre o grupo de militares e a gente, um dos meus já tinha caído. Os estilhaços de fragmentação acertaram todo mundo, eu estava coberta, eu vi a mandíbula de um amigo sendo atravessa por pedacinho de fogo, em uma mistura de dor e em um cena infernal ele deu adeus a esse mundo.

Eu segui, atirando contra os militares torcendo para que os desgraçados não me flaqueassem até eu chegar na rota de fuga, minha própria rota de fuga, João entrou na minha frente e levou  um tiro por mim, ainda lembro do sangue respingando no meu rosto... que merda até hoje eu sonho com esse sangue no meu rosto... tem dias que fico lavando o rosto na esperança que suma de vez....

Eu consegui fugir, consegui sai do país e fui para o México... Meu corpo porque meu espírito ficou quebrantado... os meses seguintes foram... difíceis de descrever... lembro da rua... lembro de catar comida... de correr da policia... de matar policiais... Não lembro como cheguei na porra daquela cidade onde eu iria morrer.

Era uma cidade pequena, acho  que cheguei de trem por lá, estava. Naquela época você via diversos outsiders andando de um lugar para o outro, enquanto a porra dos hippies curtiam a liberdade e a era de aquária, tinha muita gente ferrada por causa das guerras. A guerra nunca muda, mas as pessoas.
Eu lembro que cheguei pelos trilhos do trem, junto com um grupo de moradores de rua, os caras eram legais, mas devo dizer que não lembro muito dessa época, deve ter sido o trauma, deve ter sido o monte de merda que fica zumbindo na minha cabeça. Só sei que cheguei em um dos distritos dessa cidade e fiquei um tempo em beco, pegava comida do lixo mesmo. Uma noite a porra de um homem veio para cima de mim, eu já tinha lidado com tipos desses antes... muito antes do feminismo radical falar sobre autodefesa, eu já sabia me defender muito bem.

Em principio, a mesma coisa, o mesmo papo, esperou eu ficar sozinha, eu tinha avistado o fudido a duas quadras me seguindo, deixei ele morder a isca, ele veio pra cima. Foi tudo bem rápido, um piscar de olhos, ele me agarrou, os braços deles eram um pouco mais fortes do que eu tinha calculado e extremamente frio, eu deixei-me levar e com a força dele aproveitei para dar uma cabeçada no nariz do patife. Eu senti quebrar o nariz, mas ele não me soltou, o que era estranho, esses fudidos covardes choram feito crianças ao primeiro sinal de reação.

Mas a cabeçada era só uma distração, para que ele não percebesse eu pegar a faca, mas ao invés de me soltar, ele me mordeu, hoje entendo muito bem, mas na época eu imaginei que fosse um doido desgraçado, ele me mordeu e em segundos me senti fraca, por um momento eu senti vontade de me entregar aquele abraço, mas que mera eu não ia fazer isso.

Eu girei meus calcanhares, girei o quadril, coloquei a perna por trás dele tão rápido que ele nem sentiu, ele desequilibrou como o previsto e caiu, mas mesmo assim ele não me soltou, percebi por um segundo que ele estava sugando meu sangue... o que quer que fosse aquilo eu iria morrer, mas assim como ele me levou para o chão eu ia levar ele comigo para o inferno.

No chão, ele me apertava mais ainda, aproveitei para esfaquear a coxa dele, tão fundo e no ponto certo para acertar a sua artéria, quando senti a faca atravessar e chegar no ponto certo, girei o cabo, seria uma perna a menos com que me preocupar, dessa fez ele afrouxou o aperto e largou meu pescoço, girei tão rápido quanto podia para o lado, desferindo uma outra facada, dessa vez abaixo do braço esquerdo,havia sangue para todos os lados, eu estava sangrando... ele estava sangrando.

Ele tentou segurar um dos meus braços, que tolinho! Eu finquei a minha faca no antebraço dele e joguei meu corpo para trás, a tração arrancou músculos, pele e mais sangue, dessa vez ele gritou. Normalmente em uma luta com facas o primeiro golpe já teria sido o suficiente, mas o que estava na minha frente era um animal, um bastardo, quando ele gritou eu vi suas presas. Era um vampiro, hoje eu sei, na época eu pensei que era loucura.

Eu joguei meu corpo pra trás e rolei de costas, levantando, mas o sangue escorria tanto que já me sentia tonta, sabia que meu próximo golpe seria o último, já estava me dando por vencida, eu então saltei em cima dele, dando uma chave de pernas, prendendo o outro braço e o pescoço juntos, usei a faca como apoio para puxar o mais forte possível, cravei na garganta dele e apertei a chave de pernas com o resto de força que tinha, eu senti o pescoço dele quebrar. E o sangue escorrer, mesmo assim ele ainda estava vivo, mas já não era mais ele, era uma besta, olhos vermelhos, ensaguentado, desferir outra facada no mesmo lugar, como mais força, isso fez sua cabeça pender como se fosse um saco, depois outra faca para separar as vértebras, a faca quebrou no osso do desgraçado e minhas mãos se cortara, mas sabia que não podia parar.

Eu usei minhas mãos para puxar a cabeça dele do corpo, a pele rasgava, mas não é uma coisa fácil de se fazer, a nossa pele não rasga tão fácil assim, meti meus dedos nos olhos desse desgraçado e fui puxando como se não houvesse amanhã, e não havia, só percebi que ele não se mexia, depois dar uma outra cabeçada na cabeça desesperada. 

Nessa hora eu chorava em desespero, estava deitada numa poça de sangue, sentindo aos poucos minhas pulsações aceleradas bombeando mais sangue para fora do meu corpo, estava com minhas mãos na ferida que o desgraçado tinha feito.

Eu olhava o céu, não havia estrelas, eu escutava barulhos vindo de fora do beco, aos poucos em sentia muito frio... nas minhas pernas... no meu corpo... era o fim. Eu aos poucos fui me acalmando.

Era aquele meu fim, morta sabe lá porque em um beco em uma cidade que nem lembrava o nome, morta por uma coisa que nem sabia o que era, anos de treinamento miliar, anos na selva, escapando de balas, bombas e minas, para morrer numa cidade para uma coisa como aquela, eu respirava fundo tentando me consolar.

No final a morte não é legal, eu nunca quis morrer, apesar e saber que um dia isso iria me acontecer, mas a gente sempre nos vê velho, mas aquilo, meu deus. Aquilo era surreal, eu lembro de ter sorrido que merda aquela coisa também nem imaginaria que eu iria reagir daquele jeito, eu gargalhei de nervosa. Eu ia morrer naquele beco, caminhei tanto para morre ali

Então tudo foi ficando escuro, não teve nenhum túnel de luz, não teve ninguém que eu conhecia me dizendo: – vá para a luz, vá para luz! 
Eu apenas parei de respirar em algum momento e minha consciência desapareceu.

Eu acordei, porra o pior de tudo isso é que depois que eu aceitei que ia morrer, eu acordei de novo, mas não estava no beco, estava em uma cama, estava tudo escuro e velas cercavam uma cama de casal surrada, um cheiro de poeira no ar, eu estava com outra roupa, um vestido velho, que cheirava a merda, eu estava ali em uma casa abandonada, sem nada por baixo, com um vestido de uma velha morta.

Eu nunca fui uma donzela, eu acordei puta da vida, achando que era o inferno e eu ia sentar a mão no capeta. Quando uma voz vinda de um canto, como se estivesse sempre ali desde que abri meus olhos, nos poucos segundos que retomei a minha consciência.

- Eu não sou o capeta Valentine, eu me chamo Marcos! E vamos ter uma conversa!

A única coisa que eu pensei foi, puta que o pariu filha de uma puta!