Dezembro 1991
Brendan dirigia cansado pela E-23 rumo a Rotom City, 200 dólares para entregar uma caixa com livros em um apartamento no centro da cidade, ele não gostava de sair do campus, afinal de contas era seu habitat natural, sentia-se extremamente seguro atrás dos muros da biblioteca, mas seu professor pediu um favor e o dinheiro viria a calhar, dois anos estudando comportamento humano na faculdade de psicologia, todo mundo disse-lhe para fazer alguma faculdade de direito, ou medicina, ele insistiu nisso. Nem se quer foi para uma faculdade renomada, parou em um campus de terceira, próximo de Chicago, onde estão as cabeças pensantes da área, mas ele não se importa muito
A noite está gelada e ele se sente cansado, a paisagem da estrada, uma imensa floresta que deixa a estrada mais escura do que realmente poderia ser apenas o deixa mais sonolento, ele olha calmamente para o relógio, passam das duas da manhã, seu professor disse que a moça estaria acordada esperando, doutora Anabelle Hugson, especialista em Política Externa, um referência no país, só não lhe entra na cabeça porque não poderia esperar até amanhã, mas vai saber.
Um pouco mais a frente à chuva começa a cair, ele sente o frio atravessando sua pele, a fome começa a apertar, mas ele continua a dirigir sem parar, acelera um pouco mais e liga o rádio, está tocando Jump do Van Hallen, ele sorrir pelo menos isso o aquece um pouco.
Ele entra pelo norte da cidade, as ruas molhadas não são nada acolhedoras, ao longe ele vê os prédios do centro, a cidade parece uma Atlanta só que em escala menor, não pensa muito apenas segue em frente.
Para em um posto para abastecer, olha em seu relógio três e meia da manhã, compra um café na loja de conveniência e segue em frente até o endereço, quase 4 horas ele encontra o apartamento, não foi difícil, ele fica feliz por não ter sido assaltado duas vezes, na portaria o funcionário diz para ele subir, ela mora na cobertura.
Ao se olhar no espelho do banheiro segurando a caixa de papelão ele se arruma um pouco, ajeita o cabelo e seus enormes óculos, da um sorriso sem graça e espera a porta do elevador abrir, saiu pelo corredor meio sem jeito, quase tropeçando no carpete, só há uma porta, segue em frente, ele não está acostumado com um lugar tão requintado, sua família sempre fora de classe média, ele muitas vezes se quer tinha dinheiro para nada, jamais compraria uma cobertura, ele tinha bem consciência disso, não que se importe no fundo.
Antes que chegue à porta ela se abre, do outro lado uma mulher um pouco menor que ele, ela está com um vestido preto de festa e salto alto, mesmo assim Brendam ainda é maior que ela, ele se sente demasiadamente envergonhado, ele não consegue nem fitar a moça.
“Bom.. dia senhora” – ela sorri ao perceber a timidez do garoto
“Não me chame de senhora, não sou tão velha assim, pode me chamar de Ana, entre”
“Não senhora, não estou devida...”
“Entre...” – diz em um tom mais firme, Brendan nem questiona mais, apenas se move para dentro do apartamento.
De repente está dentro de uma sala ampla, vê um piano de cauda do seu lado direito, uma mesinha no meio da sala, o local é limpo como um hospital, mas ele sente algo no ar, algo que está errado, mas não consegue perceber direito o que é.
Quando se vira Ana está tão próxima dele que ele sente o perfume dela, percebe o leve odor misturado com algo, consegue perceber que a pele dela é tão lisa e parece ser tão macia que ele poderia ficar dias apenas fitando seu rosto, mas então ele percebe o obvio, ele não consegue sentir a respiração dela. Ao se dar conta disso sente algo quente escorregando pela sua perna, olha e percebe que é sangue.
Percebe um punhal fincado em seu estomago e perde a força, caindo quase desfalecido.
“Mas o que foi que eu fiz?” – ainda fala.
“Você não fez nada, não fez nada de sua vida, até hoje.”
Ela se aproxima do pescoço de Brendan e começa a beijá-lo, ele sente o sono tomar conta dele, olha pela janela e vê os raios cortando a noite escura...
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